Os paradigmas tecno-econômicos revisitados: uma discussão sobre Freeman & Perez

Posted on 6 de abril de 2009

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João Martins

As explicações sobre a economia digital, mais que uma casual reflexão sobre problemas analíticos, são disputas sobre os rumos gerais para a administração da vida produtiva. Tais perguntas políticas têm origem na necessidade de explicar a estagnação que se inicia em 1974 e a posterior retomada do crescimento. Entre as diversas leituras disponíveis, uma das mais aceitas diz respeito à capacidade das tecnologias de informação de reorganizar as estruturas produtivas. Uma reposta de intensa repercussão foi a visão dos assim chamados “neo-schumperianos”, apresentada ao público nos textos de Giovanni Dosi, Richard Nelson, Sidney Winter e especialmente Christopher Freeman e Carlota Perez [1].

Entre este conjunto amplo de contribuições, o último trabalho talvez seja um dos mais citados. Tal sucesso decorre da clara descrição sobre paradigmas tecno-econômicos oferecida pelos autores e, de modo principal, da forma que desenvolvem o conceito de fatores-chave. Esta segunda idéia oferece especialmente uma formulação bastante prática para se interpretar a nova fase na qual o capitalismo teria entrado. A explicação, de conteúdo simples e direito, possui aquela força concreta capaz de despertar convencimento e suscitar adesão. Em larga medida, o artigo é como uma ponte: do extremo que parte, está uma sólida base de discussões acumuladas com base na teoria econômica relativa ao crescimento produtivo e às destruições criadoras; do lado que chega, toma a direção de um debate político.

Algumas sutilezas do assunto, porém, permaneceram pouco exploradas. Tal constatação é curiosa, principalmente quando se percebe como os temas de Freeman e Perez que encontraram maior repercussão foram exatamente aqueles assuntos já extensivamente explorados pelos outros escritores do grupo. Apenas metade de suas idéias foi popularizada, e não se tratava nem ao menos da metade mais original. Parece até redundante retomar o tópico que lhes garantiu atenção: a constatação de que estaria em ascensão uma nova forma de organização econômica, pautada pela primazia das tecnologias de informação, resultado de uma reformulação específica da estrutura econômica.

Porém, as bases do argumento continham questões de significativa relevância. Passou despercebido como a principal discussão dos autores é com explicações que, por atentarem à decisão sobre o investimento como tópico central na interpretação sobre redução de crescimento, são identificadas como keynesianas. O erro de tal abordagem estaria em não distinguir qualitativamente de que modo, ao longo das diversas fases que constituem o capitalismo, os diversos tipos de gastos em bens de capital estão organizados. Os autores argumentam que, motivado pelo interesse único de manter adequado o nível dos investimentos, os partidários desta perspectiva não consideram o quanto distintos fatores produtivos têm imensa ou nenhuma importância em diferentes fases do modo de produção.

Freeman e Perez insistem que o essencial é ir além da mensuração dos gastos. As agregações expressas nas funções de produção, a despeito de sua importância estatística, reduzem as diversas complexidades envolvidas no funcionamento da economia às abstrações da quantificação de capital e de trabalho usado. O foco de análise deve ser qualitativo. Apenas assim se pode perceber como, após o surgimento de transformações estruturais, os padrões pelos quais as atividades produtivas estão organizadas simplesmente podem não mais servir. São alterações no paradigma tecno-econômico em torno do qual a economia é organizada: os mesmos gastos, nos mesmos tipos de bens de capital não seriam capazes de garantir os mesmos resultados que até então se obteve.

Tal constatação se alcança observando modificações impostas pelas alterações nos assim chamados fatores-chave. Ponto central de todo o argumento de Freeman e Perez é a idéia de que se obtêm ganhos de produtividade a partir do tipo de tecnologia utilizada, num processo que se modifica na medida que o capitalismo, ele também, se transforma. Cada período, deste modo, congrega uma constelação de técnicas, cuja operação procede a partir de uma lógica imposta por fatores que possuem a importância central na condução dos ganhos produtivos em cada fase, mas apenas em cada fase. A passagem de um momento para outro acontece quando os recursos começam a apresentar sucessivos rendimentos decrescentes, instante em que novos fatores-chave começam a adquirir importância.

O trabalho de Freeman e Perez defende a idéia de que a economia possui estágios distintos, que diferem entre si naquilo que é mais essencial. Os autores, assim, argumentam sobre a presença de uma ruptura decisiva, que introduz o sistema produtivo num outro patamar do qual não existe retorno. Muito mais que a explicação sobre o modelo de investimento por fatores-chave, tal idéia de descontinuidade acabou, enfim, se tornando o tópico de efetiva influência de seu texto. Seu impacto direto ganhava energia ao surgir conjugado com a necessidade própria aos anos pós-crise de buscar explicações alternativas às políticas keynesianas que, por diversas razões, pareciam não mais oferecer resultados satisfatórios; e pouco tempo antes do discurso sobre uma nova economia, cuja principal característica era ser “digital”, ganhar força e ímpeto.

Um de seus principais riscos, talvez o maior, seja desconstruir o elo que existe com o passado, apagando uma das perguntas de maior peso que as ciências sociais podem realizar: quais caminhos devem ser percorridos para que um momento histórico ceda lugar a outro? Como certas características marcantes para certo período do capitalismo vieram a ceder frente a traços que são tão diversos dos anteriores? Com isso em mente, a explicação da “revolução tecnológica” talvez não seja a melhor opção. A forma distinta pela qual a economia opera talvez decorra não de uma mudança radical imposta pela passagem a um outro estágio do sistema produtivo. A necessidade de nova análise econômica não quer dizer que se está diante de uma nova economia.

Talvez as distinções estejam em mecanismos da estrutura de demanda e de custos que, por razões que transcendem a utilização em massa de um dado fator de produção, passam a se tornar progressivamente mais visíveis. Encarando o problema sobre esse prisma, surge a chance de se compreender como algumas características já anteriormente em atividade, mas ainda num lugar periférico da cena podem passar ao centro da ação. Esforços como os de Hal Varian e Carl Shapiro no seu “Information Rules!” talvez estejam mais afinados com esta segunda proposta. Por este outro ponto de vista, a economia que se diz “digital” trata muito menos de uma transformação na lógica do uso de fatores produtivos, e muito mais sobre traços do sistema, não explorados por serem muito específicos a um capitalismo extremamente desenvolvido [2].

Deste modo, as externalidades de rede e a competição em torno de padrões talvez sejam assuntos novos, mas não por serem próprios uma outra realidade. Quem sabe sejam tão somente traços da estrutura produtiva que causa efeitos específicos a partir de dado momento, a despeito de estarem lá presentes há muito tempo. A questão, desta forma, passaria a ser quais processos históricos tiveram que transcorrer para que finalmente estes traços pudessem ser plenamente aproveitados. O problema, deste modo, se torna a gênese do conjunto de decisões que progressivamente transformaram os mercados, aumentando sua complexidade. A produção de mercadorias como computadores e a ascensão das tecnologias de informação e comunicação tornam diversas questões visíveis, mas possivelmente talvez não sejam tais máquinas que tenham desencadeado algum processo que fez estes elementos ganharem importância. Seria interessante, ao contrário, levantar a hipótese de que o uso destas tecnologias representa o indício da complexificação do sistema como um todo, ele sim, que se precisa explicar.

[1] Structural crisis of adjustment, business cycles and investment behavior”, em Giovanni Dosi et al 1988. Technological change and economic theory. London: Pinter Publishers, 1988.

[2] A proposta, deste modo, é de que a chave explicativa reside não na importância que se passa a dar a algum tipo de insumo, mas sim no desenvolvimento e na complexificação de mercados, o que torna possível que sua organização tenha de ser operada de forma diferente.

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