Vida Toda Linguagem

Posted on 17 de julho de 2009

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Janaina Faustino Ribeiro

“Vida Toda Linguagem” é o nome de um dos mais sugestivos poemas de Mário Faustino, admirável poeta da primeira metade do século XX também morto jovem, em 1962. Refletindo sobre a inovação da linguagem e sua relação com a tradição, o poeta registrou: “Vida toda linguagem/Há, entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome/Aqui, ali, assegurando a perfeição/Eterna do período, talvez verso/Talvez interjetivo, verso, verso”.

Piauiense como Torquato, Faustino escreveu um capítulo respeitável na história da crítica literária brasileira ao publicar, entre 1956 e 1958, a coluna “Poesia-Experiência”, no Jornal do Brasil. Era um intelectual combativo, herdeiro de uma linhagem emoldurada pelo modernismo brasileiro, pelo “make it new” de Ezra Pound e por vanguardas estéticas como o concretismo. Em sua curta trajetória, reivindicou o compromisso com a evolução artística – imortalizado no lema “repetir para aprender, criar para renovar” – sem descartar, no entanto, os formatos tidos como tradicionais no processo criativo. Não foi por mera coincidência que recorri a este poema (e ao seu autor) para discorrer sobre a obra poética de Torquato Neto.

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Antes de prosseguir, porém, faz-se necessária uma explicação acerca daquilo que se toma como “tradição” aqui. Conforme Eduardo Granja Coutinho [1], há uma distinção entre tradição e tradicionalismo, sendo a primeira entendida como algo vivo, inventivo, como articulação orgânica entre sujeito e objeto ou entre o povo e seu patrimônio cultural. A tradição se apresenta como um processo ativo e dialético de reconstrução e reelaboração do passado por um determinado sujeito histórico. O tradicionalismo se pauta, por outro lado, pela compreensão da cultura como o lugar da pureza, da autenticidade e da imobilidade. A cultura é percebida neste modelo como coisa morta, cristalizada, que não segue em frente e não avança com o tempo.

Acredito que ambas as perspectivas, ainda que antagônicas, estiveram perpassando, em conflito, a produção de Torquato. Foi o debate ilustrado no dilema entre a importância que deveria ser dada às linguagens artísticas consideradas tradicionais e a necessidade de experimentação permanente que marcou sua obra. Ora a linguagem aparecia como algo a ser preservado, cultivado e respeitado, ora como instrumento de subversão e crítica. E este paradoxo sempre esteve presente em sua poesia, tanto a musicada quanto aquela que jamais ganhou uma melodia. Admirador profundo da literatura de cordel e de escritores como Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Ezra Pound, Augusto de Campos e João Cabral de Melo Neto, entre outros, Torquato se colocou em uma espécie de posição fronteiriça entre o desejo de descoberta e a conexão cuidadosa com o cotidiano vivido e a tradição [2].

Este franco e denso diálogo com a tradição na linguagem poética pode ser notado nos poemas de sua juventude, produzidos entre 1961 e 1962, enquanto cursava o ensino médio em Salvador. Em “Tema”, escrito antes dos 17 anos de idade, Torquato interagiu com o “E agora, José?”, de Drummond, demonstrando a apreensão “de um jovem provinciano que, tendo convivido com uma imagem pomposa da poesia [3], [viu] sua inspiração “sufocada” pela simplicidade e pelo coloquialismo do poeta mineiro” [4] . Ele escreveu: “Pelo menos, José do Carlos Drummond de Andrade,/Informa, depois de pensar:/Quem é o culpado de eu não ser poeta?/O Carlos Drummond?”. Mais adiante ele ainda questionou: “Será que tiraste toda a poesia/Que antes brotava,/Jorrava de mim?” [5] .

Em “Bilhetinho sem maiores conseqüências”, de 1962, o poeta fez críticas a Vinícius de Moraes, uma de suas maiores influências ao longo de toda a vida, por ter escrito o verso “bares repletos de homens vazios”. Para o jovem Torquato, os homens estavam, na verdade, cheios “da maldade insaciável/dos que fazem as coisas e organizam os fatos”. Cobrando um olhar mais pessimista do mundo de um poeta classificado como “Vinícius ‘Felicidade’ de Moraes”, anotou: “E você/que os conhece tão de perto/Vinícius ‘Felicidade’ de Moraes/não tinha o direito de esquecer/essa parcela imensa de homens tristes,/condenados candidatos naturais/a títulos de tão alta racionalidade/a deboches de tão falsa humanidade” [6] . Segundo Paulo Roberto Pires, Torquato terminou incorporando ao seu estilo dois procedimentos estilísticos característicos de sua poesia lírica, quais sejam, o de mencionar amigos e aspectos biográficos em seus textos, e o de fundir música e poesia – “sabendo exatamente que uma não se confunde com a outra” – através de uma atitude poética afastada do puro beletrismo [7].

“Desejo” e “Patriotismo”, por exemplo, já carregavam o tom de paródia, humor e deboche que caracterizariam seus futuros poemas, sendo o primeiro uma sátira das imagens sublimes e eloqüentes da poesia romântica; e o segundo um embrião das subversões tropicalistas em que a bandeira nacional apareceu representando um “céu azul/de mau gosto” e “no fundo, o verde;/ a esperança no fundo de tudo” [8] . Em outro momento ele ratificou: “Amarelo,/Azul/E até preto – que é ausência,/Aparece abobalhadamente,/Estupidamente,/Hipocritamente a proclamar/Com letras verdes, verdinhas de esperança verde:/“Ordem e progresso”” [9] . Estes poemas são apenas alguns exemplos de que, como aponta o pesquisador Paulo Andrade, a poesia de Torquato Neto, apesar de fragmentária, (1) possui uma mesma intencionalidade; (2) se configura, até a sua fase “marginal”, como uma poética reflexiva e de resistência baseada no inconformismo; e (3) aparece como forma de ser e estar no mundo através de si mesma [10].

Para Andrade, Torquato construiu uma estética que terminou concedendo unidade à multiplicidade de papéis desempenhados e modos de expressão perseguidos por ele. Trata-se de uma poética singular, que simboliza uma tensão trágica entre o eu lírico e a conturbada cultura do seu tempo, ou seja, dos anos 1960 e 1970. Este conflito está presente tanto em sua fase adulta do “nacional-popular”, quando suas letras, textos e poesias preconizavam para a chamada cultura brasileira um lugar de pureza, quanto em sua fase já concretista, oswaldiana e tropicalista, momento em que passou a atuar como um poeta-arquiteto, um autor-artesão que requeria saltos de qualidade através da subversão artística. Era através desta tensão entre a linguagem – que, no fundo, diz respeito ao diálogo com a subjetividade – e os formatos tradicionais que o poeta pensava o momento histórico vivido no país e sua relação com a cultura.

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Do mesmo modo em que traduzia as transformações de seu tempo, a poesia torquatiana se fundia à música popular tornando-se palatável ao grande público e tocava muitas vezes em temas vinculados à cultura pop (aqui em sua fase mais tropicalista). Contudo, não se desfazia da densidade da palavra. Neste sentido, é possível sustentar que Torquato promoveu uma experiência com as palavras e, a partir delas, criou imagens da vida nacional realizando o ideal modernista e oswaldiano de fragmentar a linguagem ao extremo a fim de produzir outra linguagem.

Tal qual Mário Faustino, o poeta possuía uma inquietação espiritual que conferia à sua poesia um sentido de luta que não se travava apenas no campo da linguagem, mas no mundo real, sobretudo. Como sua trajetória evidencia, não se tratava de um mero exercício formalista apartado do cotidiano e da experiência (experiência aqui sendo aplicada no sentido tanto da experimentação, da busca pelo novo e desconhecido da arte, quanto no da prática individual no mundo).

Ao contrário, seus escritos tematizavam todos os conflitos vivenciados pelo poeta, dentre eles o vazio interior e a relação com a morte, o desencantamento com a política nacional, a inabalável recusa ao mundo moderno e seus desdobramentos, a crise de identidade e a dificuldade em adaptar-se ao presente [11]. Assim, neste processo de escavação que articulava a arte e a vida, Torquato, como um ilustre representante daquilo que Décio Pignatari chamou de “nova sensibilidade dos não-especializados”, comprometeu-se com sua própria voz e sua vontade de ruptura. Talvez isto faça dele um personagem tão extraordinário e corajoso para a cultura brasileira.

[1] COUTINHO, Eduardo Granja. Velhas histórias, memórias futuras. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2002, p. 15-24.

[2] CASTELLO, José. Feroz independência. Bravo!, São Paulo, n. 61, 2002, p. 90-93. Este texto de Castello sobre Mário Faustino foi essencial para que eu pudesse estabelecer as relações com o pensamento de Torquato Neto.

[3] Além dos autores já aqui mencionados, outros também aparecem como fundamentais no campo da literatura para o jovem Torquato. Dentre eles, Sousândrade, Castro Alves, Luís Vaz de Camões, Olavo Bilac e Machado de Assis. VAZ, Toninho. Pra mim chega – A biografia deTorquato Neto. São Paulo: Casa Amarela, 2005, p. 15-29.

[4] PIRES, Paulo R. (org.). Torquatália. Do lado de dentro. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, Volume I, p. 33.

[5] Ibid, p. 38.

[6] Ibid, p. 42.

[7] Ibid, p. 33.

[8] Ibid, p. 34.

[9] Ibid, p. 37.

[10] Para compreender a poesia de Torquato, ver ANDRADE, Paulo. Torquato Neto – Uma poética de estilhaços. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002, p. 184.

[11] Ibid, p. 190.

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Posted in: Arte & Estética