Convergência tecnológica, convergência de negócios: as teles e o mercado audiovisual no Brasil

Posted on 6 de novembro de 2010

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Riscos de simplificação existem no próprio ato de classificar. Todavia, não parece absurdo afirmar que existam hoje, no Brasil, dois modelos para a televisão na era digital. O primeiro deles descreve uma expectativa. Tal iniciativa, entre as quais um projeto como o Google TV merece destaque, preza pela integração definitiva entre TV e Internet. Crê-se na possibilidade de reunir inovações como mídias sociais com o conteúdo audiovisual. O uso de mecanismos de busca como ferramentas de acesso a conteúdo; a garantia da interatividade através da possibilidade de inserir material: todas são expectativas sobre o futuro, embora o projeto remonte aos anos 90. Sony e Logitech se comprometeram a produzir equipamentos. Todavia, grandes produtores de conteúdo são imprescindíveis e, até o momento, eles não se pronunciaram em relação à inovação.

A segunda possibilidade se refere à entrada sistemática de grupos de telecomunicações no negócio de audiovisual. Ao contrário da primeira hipótese, aqui se observa algo que acontece de fato desde o início da década de 2000. No caso brasileiro, o negócio de TV por assinatura surge como o principal local para se perceber tal tendência: a televisão aberta, afinal, sofre de uma imensa inércia. Hoje, a TV paga no Brasil é um negócio distinto daquele controlado por grupos familiares nacionais que concentravam em si todas as competências necessárias ao seu negócio, como corporações verticalmente integradas. Cada vez mais este tipo de televisão necessita se associar com outro setor, o de telecomunicações. Convergência econômica, mais que uma expectativa, aparece concretamente neste segundo caso.

Sem dúvida, o cenário se desdobra diretamente da renovação iniciada com a oportunidade de integrar conteúdo em uma única base tecnológica, mas não apenas disso. Na verdade, um conjunto extenso de transformações organizacionais teve de entrar em pauta para tal cenário se tornar realidade. A propriedade dos negócios de televisão por assinatura está em transformação. Também a regulamentação de tal atividade atravessa mudanças. O modo de organização destes empreendimentos parece estar próximo daquilo que Castells chamou de empresa em rede. Tal estrutura se assemelha àquela no qual corporações buscam parcerias estratégicas que permitam operar satisfatoriamente numa atividade global e competitiva, retornando suas competências centrais e buscando escapar dos mercados saturados.

Diversas tendências ocorrem simultaneamente. Por um lado, o impulso percebido nos EUA com o Telecommunications Act de 1996 permite a formação de conglomerados de telecomunicações que progressivamente marcam sua presença nos negócios de Internet por banda larga. No Brasil, as possibilidades dos ganhos de escala e das economias de rede induziram a decisões semelhantes. O negócio de pequenos provedores para conexão discada, iniciado nos anos 90, cede lugar a empreendimentos bastante distintos. Por outro, a posterior concentração das teles reforça a característica global da atividade. A compra da Telemig Celular pela Vivo em 2006 e da Amazônia Celular pela Oi em 2007; a aquisição da Brasil Telecom pela Oi em 2008 e o negócio entre Telefônica e Vivo em 2010 são indicativos de um mesmo movimento de concentração e de formação de oligopólios capazes de atuar numa economia integrada.

Esta tendência de globalização das teles pode ser percebida também nos negócios de audiovisual. A difusão de televisão via satélite foi um passo importante neste sentido. No Brasil, os custos do negócio e a complexidade tecnológica nunca permitiram que fosse levado adiante apenas por corporações nacionais. A primeira iniciativa brasileira data de 1991, com a comercialização de sinais analógicos pela Globosat. Por limites técnicos, disponibilizavam-se poucos canais. As inovações de News Corp, Hughes e PanAmSat introduzem recursos digitais entre 1992 e 1993. Os custos elevados tornam necessária a associação a empreendimentos internacionais: assim, a partir de 1996, entram em operação, em nosso país, os serviços de Sky e DirecTV.

Por sua vez, a convergência tem início de fato com a aquisição de serviços de televisão por assinatura por operadoras de teles. Nesta trajetória, o ano de 2006 reúne acontecimentos notáveis. A compra da Way TV pela Oi marca a entrada da corporação na atividade de transmissão de audiovisual. No mesmo ano, a então segunda maior empresa de TV paga no Brasil, a Vivax, seria comprada pela Net. A empresa fora capaz de utilizar diversos recursos de um mercado financeiro desenvolvido, como abertura de capital e negociação de financiamento, antes de ser absorvida. No mesmo mês, a TVA venderia à Telefônica seu negócio de MMDS e parte de suas atividades em televisão. Dois anos antes, Globo e Telmex já haviam se associado para a Net, tornando-a um negócio capaz de envolver telefonia, TV por assinatura e banda larga.

Na verdade, dois mercados parecem ter visto suas mercadorias essenciais se transformarem em commodities. De um lado, tem-se a televisão convencional, com a internacionalização da produção audiovisual e a progressiva ampliação de canais de difusão de conteúdo. Aquilo que se inicia com atividades regionais de TV a cabo, nos EUA dos anos 70, transforma-se num empreendimento global, capaz de envolver satélites, transmissão digital e outras inovações. De outro, as teles entram neste mercado convergente a partir da percepção de que serviços de voz não eram mais suficientes em termos de concorrência. Assim, deste entendimento decorrem investimentos na ampliação de mobilidade, na transmissão de dados, ou seja, em atividades que permitam explorar mercados anexos.

Todos estes movimentos são clusters de inovações tecnológicas e organizacionais. O Brasil segue de perto tal tendência. Tais eventos ocorrem associados, numa lógica que surge da convergência de todas as atividades descritas. As probabilidades para o futuro são difíceis de prever. Por um lado, a ampliação de canais de transmissão e o aumento da demanda por conteúdo pode permitir a presença de novos produtores de material. Por outro, os personagens já estabelecidos neste ramo foram muito bem atendidos – até o momento – em suas demandas por receberem atenção especial dos proprietários de infra-estrutura.

Contrariando a expectativa dos defensores de um princípio substantivo relevante – a democratização da comunicação – parece difícil crer, num mercado de tamanhas proporções, na possibilidade de veículos comunitários se transformarem numa iniciativa de importância concreta. Uma outra possibilidade estaria em criar um mercado para produção de conteúdo diversificado e empreendedor. Neste cenário, a possibilidade de negociar parcerias para difusão de novos produtos envolve o desenvolvimento de habilidades ainda difíceis de encontrar em nosso país. Neste sentido, o futuro se mostra complexo, mas, ao mesmo tempo, instigante.

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