Dois tempos: a televisão via satélite no Brasil, parte I

Posted on 20 de março de 2014

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No Brasil, a televisão via satélite possui dois históricos. Ambos se separam por um intervalo de dez anos. Na primeira metade, dois empreendimentos – um ligado à indústria cultural, outro, com laços de longa data com as atividades de satélites – serão os personagens centrais.

Mas não por muito tempo. Uma segunda fase presencia o surgimento de novos envolvidos, ausentes no momento anterior. Aqui, importante se torna a tentativa das empresas de telecomunicações em participar na atividade.

Nos anos 90, News e Hughes, no afã de introduzir a televisão via satélite nos EUA, decidiriam, na vertigem da novidade, tentar a sorte também na América Latina. Na década de 2000, Telefónica – em pouco tempo seguida por seus competidores– forçaria passagem entre os presentes.

Em 1994, a Hughes, envolvida desde a primeira hora com tudo que se refere a satélites, recuperava-se de uma aliança frustrada. Havia cogitado, quatro anos antes, junto com News, NBC e um sócio menor, diversificar suas atividades e se inserir na indústria cultural.

Encerrada esta tentativa, decide investir seu tempo em negociar conteúdo por acordos dos mais diversos e em se associar a um parceiro pequeno, mas hábil em controlar um valioso punhado de licenças. A partir daí, inventava o serviço conhecido, nos EUA, de DirecTV.

Aquele fracassado acordo seria importante para traçar, também, o futuro de News. Esta tentativa pregressa representava sua segunda tentativa de atuar nos Estados Unidos. A recorrente negativa criava uma lacuna central para um personagem capaz de atuar na Ásia e Europa.

Muito rapidamente, ambas vão lançar-se na América Latina em curiosa sincronia. Nesta região, vão buscar a coexistência com personagens locais. Aqui – agora e sempre – conexões das mais diversas são indispensáveis em nossas terras.

Assim, entre 1995 e 1996, News se liga a Globo, Televisa e Liberty; Hughes, a Abril, Cisneros e um sócio menor. Todos possuem expectativas das mais altas. Através de suas alianças, vislumbram um serviço de satélite em cada país, pouco importa quão pobre seja.

No Brasil, as motivações tem uma cor mais local. Globo espera afirmar sua influência; Abril, conquistar alguma, naquela atividade sempre cobiçada, mas na qual sempre carecera de qualquer espaço.

Este interesse de grupos internacionais nada possui de casual. Na verdade, reflete um processo mais antigo. No Brasil e em diversos outros países semiperiféricos, a constituição da indústria cultural decorre da internacionalização de atividades com origem no centro.

Refletindo sobre os anos 60 e 70, Renato Ortiz descreveu o impulso através do qual inovações restritas ganham importância em regiões que não presenciaram seu surgimento, contribuindo para o complexo processo de racionalização da cultura.

Ao discutir tal instrumentalização, seu “A Moderna Tradição Brasileira”, concentrou-se sobre aspectos dos mais variados: o papel do Estado, com suas ideologias de segurança, planejamento e integração nacional; a consolidação da figura do empresário em terras de domínio senhorial; e tantos outros.

Em anexo a tais temas, Ortiz aborda com clareza e precisão um tópico poucas vezes encarado com a necessária atenção: as interações travadas no campo econômico para construir a estrutura indispensável à distribuição de conteúdo.

Tais tecnologias permitem intervir sobre o próprio espaço, atribuindo novo significado à ideia de distância. Sem elas, parece pouco provável imaginar qualquer possibilidade de supor a indústria cultural como a conhecemos hoje.

Ao mesmo tempo, os próprios relacionamentos mantidos pelos envolvidos são, eles também, compostos por elos entre personagens intensamente distantes. Em seu âmago, esta fração da indústria cultural conecta espaços em mais de um sentido.

Quando, décadas mais tarde, a expansão do capitalismo contida nos processos de globalização retoma aquele movimento de internacionalização, está-se a rever este impulso prévio. Contudo, não seria tolice imaginar que nada de novo existe sob o sol?

Decerto: as redes internacionais de satélites então formadas trilham um caminho sem precedentes. Este tipo de televisão permite algo inédito para o Brasil. Pela primeira vez, o capital internacional tomará a frente de uma operação da indústria cultural.

Em pouco tempo, os sócios regionais, especialmente os brasileiros, vão perceber que projetos ambiciosos custam caro. Dívidas intensas fazem a Abril rever seu envolvimento em 1999. Em 2004, a Globo abandona a operação internacional, permanecendo minoritário no Brasil.

Em 2003, a versão latino-americana da DirecTV decreta falência. Meses depois, a News torna–se majoritário de Hughes nos EUA. Necessariamente, uma decisão no centro implica em consequências na periferia. Aos trancos, Sky e DirecTV se fundem, na região, anos depois.

Todavia, esta primeira década de televisão via satélite, a despeito dos infinitos percalços –endividamentos, falências, desistências – gera uma atividade nova em um espaço anteriormente vazio.

Os projetos de News e Hughes serão os motores de uma expansão. Os próximos a tomar parte na televisão por satélites vão se apropriar de uma trilha anteriormente aberta. Uma ação bem sucedida convoca, afinal, outros a participar da atividade.

O relativo sucesso dos satélites gera oportunidades prontas a ser apropriadas por intrusos. Em meados da década de 2000, vão ser as corporações de telecomunicações as primeiras a se associar à correia de transmissão previamente instituída.

Porém, o salto da década de 90 para a de 2000 envolve diferenças significativas. Será necessário construir relacionamentos cada vez mais complexos para permitir a participação das teles nesta fração da indústria cultural.

Nestes vínculos, os empreendimentos convencionais de comunicação vão se parecer cada vez mais como imagens que se distanciam em um espelho retrovisor. Sabe-se que estão lá, mas sua presença se torna progressivamente, menos significativa.

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