Dois tempos: a televisão via satélite no Brasil, parte II

Posted on 20 de agosto de 2014

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Foi em 2007 que a Telefónica decidiu inaugurar, no Brasil,um serviço de televisão via satélite. Em 2014, discutem-se seus números: assinantes, rendimento e afins. Dados relevantes, decerto. Contudo, menos importantes que o sentido de tal ato em um quadro mais amplo.

Tal serviço de DTH não seria, nem de longe, a primeira investida de Telefónica na indústria cultural. Seu envolvimento com a atividade possuía, já então, um extenso histórico. Sem tal passado, os fatos possíveis de observar no Brasil não teriam ocorrido.

Havia se iniciado na Espanha, sede da corporação, antes de atravessar o Atlântico. Lá, se desdobrou em tentativas variadas, que a corporação adota e abandona conforme a ocasião: produtoras de cinema, redes de televisão aberta e serviços segmentados via satélite.

São tentativas instáveis e complexas. Envolvem idas e vindas, lutas e alianças, em acordos entre aliados políticos e associados munidos de interesses puramente econômicos. Contingentes, rápidos em desfazer, tais redes servem de modelo para a expansão, mundo afora, da corporação.

Aprende-se, assim, algo digno de nota: a possibilidade de conectar diversas regiões e países. Trata-se de investidas associadas ao principal objetivo de Telefónica: constituir-se como um empreendimento global.

Para isso, busca ações que permitam estender sua intervenção. A escolha se torna associar, às telecomunicações, a atuação na indústria cultural. Ambos os movimentos se retroalimentam: cada nova atividade permite fincar posição em outra região, num interessante círculo.

Foi na América Latina que a Telefónica experimentou, de modo notável, esta forma de agir. Tais países, de fato, funcionaram como um imenso laboratório para a tentativa de criar, aqui, uma corporação diversificada, parte de um sistema global de comunicação.

Às redes de telefonia fixas, obtidas durante os processos de privatização; às estruturas de telefonia móvel, compradas daqueles que, a partir de meados da década passada, deixaram para trás a América Latina, vieram a se associar os serviços de satélites na Argentina, Brasil, Colômbia, Chile e Peru.

Ao definir seu projeto de emular as corporações concentradas e diversificadas que, da periferia da Europa, podia vislumbrar, as ações de Telefónica impõem mudanças sobre a ordem previamente observada em uma região tão distante quanto a latino-americana, e, também, no Brasil.

Estas ações não ocorrem sem desdobramentos. Os atos, em nosso país, interferem na forma previamente estabelecida para a mercantilização da cultura, em perturbações impossíveis de evitar.

Novamente, os satélites se mostram importantes. Por que eles, exatamente? No Brasil, são razões políticas aquelas responsáveis por transformá-los em um instrumento influente.

O acesso ao cabo dependia da garantia de autorizações, recurso regulado por decisões jurídicas. Usualmente, resistências à entrada de novos envolvidos ocorrem através da pressão para manter devidamente fechadas as oportunidades disponíveis.

Assim ocorre quando, em 2006, a Telefónica adquire a TVA, na expectativa de ter acesso à estrutura para televisão a cabo.

Por um lado, a propriedade de telefonia fixa em São Paulo pesaria, dado os limites impostos na região em que se detêm tais serviços. Por outro, existiam as barreiras à participação de empreendimentos internacionais em televisão a cabo, então vigentes.

Na época, tais choques seriam intensamente enfatizados. Eram, contudo, contratempos que, associados à intervenção de Telmex na expectativa de limitar a presença de seu rival em um país importante, tentava fazer valer estes limites de todas as formas possíveis.

Relevante, contudo, mostra-se o modo como tal renovação da indústria cultural procede de forma distinta quando comparada aos fatos do passado.

A partir da estreia de Telefónica, diversos empreendimentos de telecomunicações vão dar início à participação na indústria cultural. Nestes casos, os satélites vão se mostrar tão essenciais para a transformação na atividade como haviam sido durante os anos 90. Com diferenças, contudo.

Pela primeira vez, em nosso país, uma renovação na indústria cultural ocorre não pela ação direta de empreendimentos típicos a própria indústria cultural. Este se torna um momento de intrusos, em uma usurpação que parece não dar sinais de esgotamento.

Associar tal dado ao histórico observado desde os anos 90, quando News e Hughes tentavam se expandir por esta mesma região, permite compreender fatos de intensa relevância.

De súbito, a indústria cultural parece importante demais para se atrelar somente a seus velhos proprietários.

Mais relevante: pela primeira vez, as ações que se referem a tal atividade procedem sem a participação de brasileiros. Decerto, para o conteúdo e a programação, alguns antigos personagens ainda se mostram intensamente relevantes.

Porém, a partir de agora, isso é tudo. Algo novo se encontra no ar. Anos antes, os satélites já haviam sido a primeira oportunidade para internacionalização da televisão em nosso país. Agora, presenciam outra reordenação.

Tais satélites representam, talvez, o momento no qual a televisão possa começar a dizer respeito a algo possível de ultrapassar a própria lógica de propriedade que, em certo momento, pareceu indestrutível.

Tem sido usual pensar no dia em que a indústria cultural venha a ter muito pouca conexão com aquilo que um dia foi. Não parece absurdo supor, enfim, que a mercantilização da cultura venha a se organizar como um anexo de um sistema muito mais amplo.

A isso se chama convergência. Contudo, dito assim, sem o estofo da história, soa como palavra vazia.

Importante, de fato, torna-se perceber o processo histórico a partir do qual tal renovação tem procedido. Compreender o lugar que, na América Latina, as operações de telecomunicação possuem continua a ser o principal desafio para apreender a estruturação de tal atividade.

 

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