Google do lado de dentro do audiovisual: Android, Chromecast e a televisão por vir

Posted on 20 de dezembro de 2015

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João Martins Ladeira

A televisão – na verdade, seu substituto, distinto a ponto de herdar apenas um nome – encontra-se hoje na metade de seu caminho em direção ao que virá a ser. O formato em definição envolve associações entre muitos personagens.

Alguns, como Google, nem sequer se ligam à indústria cultural como a conhecíamos. Chromecast, um dongle barato; Android TV, um software ansioso por garantir popularidade idêntica à obtida em smartphones; ambos ilustram questões amplas.

Compreendê-los implica em discutir o vínculo, para a criação e distribuição de imagens, construído por software. Neste universo, produtores de conteúdo mantém sua importância. Afinal, tudo gira em torno das séries e dos filmes; das partidas e dos campeonatos esportivos.

As transformações pelas quais passam, contudo, torna-os irreconhecíveis. Aplicativos ou browsers, e não canais, permitem a distribuição de material. Estas imagens, outra mudança, trafegam por conexões à internet.

Manuseia-se tais televisores conectados a partir de smartphones ou tablets. Sua operação demanda Wi-Fi e 4G, indício de residências em que se busca conectar o maior número possível de eletrodomésticos.

Por fim, as estruturas para difundir tal informação tendem às fibras óticas, e não apenas ao cabo coaxial herdado da televisão a cabo. Estas questões, aparentemente técnicas, possuem um sentido.

Tais inovações possuem uma história. A consolidação da televisão movida a software se inicia durante a segunda metade de década de 2000. Os anos anteriores afirmam aquilo que, hoje, conhece-se como triple play.

Operadores de telecomunicações expandiam suas atividades. Adicionavam, à telefonia fixa e móvel, acesso à banda larga. Agregavam sinais de televisão segmentada. Transformavam-se, assim, nos principais distribuidores de cabo.

Processo irônico. Entre 1989 e 2000, os olhos do mundo se voltaram para gigantes da indústria cultural e suas fusões. Time e Warner; Disney e ABC; Seagram e MCA; Viacom e CBS; negociando fortunas, prometiam a ‘convergência’, numa espécie de paraíso digital.

Tais alianças sonharam em construir um futuro que, da forma imaginada, jamais chegaria. Anos depois, ficaria claro que tal transição se constituiria como tarefa mais discreta.

Sua condução depende de teles como Verizon, AT&T e Comcast; cujas ações Telefónica e Telmex emulariam na periferia.

Este audiovisual chega às casas via smart TVs. Telas em transformação desde a substituição dos tubos catódicos por LCDs, atraem inicialmente pela qualidade de reprodução. Sorrateiramente, introduzem outro mundo.

A partir de 2007, Sony, acompanhada, a partir do ano seguinte, por Sharp e Samsung, adicionam, às telas planas, conexão à rede através de set-top boxes e de blu-rays players, além de televisores operando como computadores.

Tal hardware, como sempre, depende de software. Os aplicativos, anteriormente popularizados por smartphones, inserem programação em tais máquinas. Capazes de executar tarefas diversas, retomam questões já identificadas nos desktops década de 80.

Criar programas como forma de tornar hardware popular fora essencial para ampliar seu uso. Sua confecção, contudo, dependia de sistemas operacionais. Centenas de programas, pouquíssimos OSs.

Quando, a partir de 2007, o iPhone revê a experiência com a computação pessoal, a resposta de Google se torna a confecção de um software, Android, e a busca por fabricantes de smartphones dispostos a adotá-lo.  Repete-se o mesmo com audiovisual.

Um primeiro experimento, Google TV, inicia-se em março de 2010. Espera-se, então, oferecer Android para um conjunto de fabricantes de equipamentos com os quais Google já possuía relacionamentos.

Sony se engajaria na produção de TVs e blu-ray players; Logitech, de set-top boxes. Lançados em outubro, estes aparelhos curiosos, que simulavam teclados de computadores pessoais, teriam vendas abaixo das expectativas.

Entre os interessados em participar do projeto estão operadores convencionais de audiovisual segmentado, como Dish. O novo ainda dependia do velho. Estes televisores conectados operariam, ainda, sobre o fluxo de serviços convencionais de audiovisual pago.

O que se segue mostra-se distinto. Inicia-se outra abordagem, em julho de 2013, com o lançamento de Chromecast. Equipamento de baixo custo, associa televisores com tablets e smartphones, e, através deles, tais aparelhos à rede.

Ao contrário da experiência prévia, Chromecast dependia não de adaptações mais ou menos divertidas de desktops. Seu sentido reside no software que gerencia a reprodução, em outra tela, daquilo que se vê em um smartphone-tablet.

Em junho de 2014, Google retoma a abordagem de 2010, adicionando aquilo que aprendera com o dongle. Android TV, projeto de agora, associa-se a novos fabricantes atentos ao software, no interesse de expandir sua funcionalidade para vários equipamentos do cotidiano.

Android, então, propõe-se a automatizar relógios e automóveis, passando também pelo televisor. No intervalo destes anos, as possibilidades para conteúdo online abandonariam a terra desolada da década de 2000, repleta de torrents e outras opções igualmente confusas.

Como de praxe, ações de HBO exemplificam tendências repetidas por diversos envolvidos. Em fevereiro de 2010, Verizon e HBO apresentavam HBO Go. Serviço para acesso online, desenvolve-se como uma formato influente de distribuição via browser ou aplicativos.

Então exclusivo para assinantes de FiOS, permite substituir um canal de televisão por um software operando em computadores. De súbito, pode-se não mais depender apenas de operadores convencionais de audiovisual.

As imagens em movimento se descolam de antigos formatos. Movem-se em direção a redes de transmissão de dados; de televisores capazes de operar a partir dos protocolos de internet; de recursos de software hábeis em difundir material.

Arrisca-se a tornar a ideia de canais negociados por operadoras de cabo-satélite e distribuídos por serviços exclusivos de audiovisual em coisa simplesmente insignificante. Um formato – aplicativos, smart TVs-smartphones-tablets, fibras óticas – afirma-se com direito próprio.

Como na combinação entre desktops e mouse, entre smartphones e touchscreen, identifica-se, enfim, um formato para a televisão de amanhã. Do lado de cá do software, um grupo restritos de empreendimentos – Google, e, claro, Apple e Amazon – institui um horizonte a explorar.

Os sistemas audiovisuais, então, começam a se mover em certa direção. Pequenas batidas indicam os centímetros que se avança. Pode-se cobrir as paredes e disfarçar o som ou proteger as mãos com luvas, mas o ruído não desaparece.

Sensação intensamente transparente, opera-se tal conjunto de equipamentos através dos dedos que circulam sobre uma tela, transmitindo comandos pelo ar, permitindo a ilusão de que procedem sem qualquer grau de interferência.

Esta sensação de ausência de barreiras, de falta de atrito, contudo, procede não por mágica, mas pela associação lenta entre diversos recursos técnicos, possível a partir do acordo de muitos empreendimentos produtivos, em elos importantes de observar.

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