Pequenos passos: over the top e TV everywhere em perspectiva

Posted on 20 de março de 2016

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João Martins Ladeira

Na organização do audiovisual contemporâneo, o período de 2007 a 2009 concentra um conjunto notável de eventos. Serviços over the top e de TV everywhere, em direções opostas, indicam um padrão para a televisão que aponta para o amanhã.

Compreender este intervalo permite apreender as características do audiovisual hoje. Neste instante, consolidam-se traços importantes para definir o formato que surge como um paradigma: a tríade smartTVs, smartphones/tablets, aplicativos de conteúdo.

Em março de 2009, Time Warner inicia diálogos com serviços para tráfego de dados, visando a difundir audiovisual pela internet. Reagia ao material disponível via YouTube, Hulu e Netflix, organizando a primeira empreitada em larga escala para este tipo de difusão.

Formalizava acordos com Comcast, em julho de 2009; com Verizon, em agosto; ambas operações de telecomunicações que se tornaram donas tanto da infraestrutura para televisão a cabo quanto para internet.

Time Warner propõe este rótulo de TV everywhere, tergiversando sobre telas múltiplas, enquanto propunha um formato a ser adotado por outros produtores de conteúdo.

Em breve, CBS, Epix, Starz, AMC, entre outros, se juntariam ao projeto, motivados pela compulsiva expectativa sobre o novo. Como interpretar tal fato?

Exemplo de uma abordagem pobre: internet e televisão se deparariam finalmente com convergência, expectativa de longa data. Aponta-se para o receituário sobre como as mídias deveriam se comportar, encaminhando-se obedientemente para sua operação conjunta.

De outro modo, relevante se torna propor associações que tracem uma tangente à ideia de convergência. Percorreu-se um circuito extenso. Ao longo dos anos, recursos digitais se expandiam em direção ao audiovisual, com a digitalização das emissoras e de seu conteúdo.

Mas até então não se conseguiu nada além que arranhar as possibilidades do formato. Em 2009, a ligação entre internet e audiovisual alçava os malfadados experimentos prévios a outro nível.

Concedia a chance para audiovisual via web desfrutar do status monopolizado pela mídia mais importante do séc. XX. Agora, não se lida mais de vídeos amadores com curiosidades relativas às trombas de elefantes, mas da televisão do séc. XXI.

Quando, em 2007, Netflix e Hulu impulsionam o streaming como opção para a difusão de conteúdo, constroem acordos com diversos produtores de conteúdo. Afirmam-se, então, como intermediários com um lugar no intervalo que vai das salas de cinema à televisão aberta.

Serviços de infraestrutura para tráfego de dados tentarão repetir a proeza, com uma contradição, contudo. Não abrem mão de manter a importância das assinaturas para cabo, padrão que a própria difusão de conteúdo pela internet deveria soterrar.

Os acordos entre produtores e operações de dados impõem que se mantenha a autenticação de assinaturas prévias. Assim, garantem somente a clientes de serviços segmentados a chance de usufruir conteúdo online.

Tais assinaturas haviam se convertido, para os produtores, em fonte essencial de recursos. A expectativa de Time Warner, e de todos que escutam seu chamado, reside em manter o que se tem antes de se perder mais do que se pode.

Incita-se os produtores a não abrir mão do passado como preço para construir o futuro. Para obter tal resultado, conectam-se com os donos das redes de tráfego digitais que misturam telefonia, televisão e internet, segundo certas condições.

A construção do audiovisual contemporâneo procede com passos para frente e para trás. Entre as muitas oscilações, o momento inicial para a distribuição via internet se mostra intensamente anacrônico.

Depende de operadores de telecomunicações, eles próprios proprietários de infraestruturas para televisão segmentada, que se expandem à adoção de fibras óticas e outras técnicas capazes de ampliar de velocidade para difusão de dados.

A despeito da intensa concentração de propriedade, que transformara os empreendimentos de telecomunicações no proprietário dos serviços de televisão segmentada, as atividades de audiovisual e de tráfego de dados haviam se mantido até então em relativa separação.

A transmissão de conteúdo era, certamente, digital. Contudo, nem à distância se usufruía, então, das possibilidades pressupostas a partir do software.

Telecomunicações e televisão operavam segundo dinâmicas próprias, sem maior proximidade entre a difusão de dados através da internet e a distribuição de conteúdo a partir de cabo. Utilizar a internet visando à circulação de conteúdo reduz ambos a uma única lógica.

Operações de telecomunicações deixam, enfim, de se afirmar apenas como os proprietários da televisão a cabo, metamorfoseando-se na infraestrutura necessária para prover um sistema integrado de audiovisual.

Em tal resultado, a extensa série de aquisições entre serviços de televisão a cabo e empreendimentos de telecomunicações se mostra, retrospectivamente, de central importância.

Imaginar a história seguindo na direção oposta, com a dissociação entre ambos, apontaria para um conflito de interesses durante a constituição do audiovisual a partir da internet.

Migrar a televisão para a web se torna um elo em uma longa cadeia que reduz a importância de emissoras e canais e redefine os limites prévios da atividade. Constrói-se, neste vaivém, a tríade formada pela associação posterior entre smart TVs, tablets/smartphones, aplicativos.

Em alguns anos, a própria Time Warner (em 2015) adere com convicção à circulação de audiovisual que prescinde destas assinaturas. CBS seguiria o mesmo rumo, prevendo para 2017 conteúdo exclusivo em streaming.

Na década de 2010, o elo com o passado se rompe definitivamente. Audiovisual parece livre para circular sem os limites de ontem. Progressivamente, os próprios produtores vão dando adeus ao formato herdado dos canais.

O legado não parece mais necessário. Serviços de infraestrutura se mostram aptos a deles abrir mão. Produtores de conteúdo, convictos do streaming como uma possibilidade viável. Algo novo, enfim, parece estar no ar.

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