Um súbito desaparecimento: “O Cavaleiro das Trevas” e a impossibilidade do super-herói

Posted on 30 de maio de 2016

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João Martins Ladeira

“O Cavaleiro das Trevas” foi o último filme de heróis mascarados. A película de 2008 não impede a proliferação do gênero. Contudo, esgota-o, tornando os demais exercícios um gato girando em torno do rabo.

Estes super-heróis cinematográficos talvez sejam o substituto do western. Não se pretende comparar ambos, questionando, por exemplo, suas respectivas qualidades visuais – ou, em alguns casos, a ausência delas.

A conexão entre eles reside no modo como lidam com uma fantasia cara ao cinema norte-americano: a contraposição entre forças antagônicas, conduzindo à reintegração das partes, com resultados satisfatórios ou decepcionantes, mas guiando sempre a alguma conclusão.

Estes embates nunca estiveram tão nítidos como no western. Em luta contra algo – os índios, os bandidos ou o próprio oeste – o herói encontrava ímpeto que o impelia a agir. Suas forças brotavam das circunstâncias e, principalmente, de personagens anexos, em seu auxílio.

No filme de super-herói, este formato reaparece de modo excepcional. Os oponentes podem ser inimigos universais (os Nazistas e o Capitão América); criaturas sobrenaturais (Venon e o Homem Aranha); seres de outros mundos, dimensões ou planetas: oponentes sem dubiedade.

Em momentos mais interessantes, estas películas nos apresentam as contradições da autoridade, questionando a própria soberania. O poder exercido por este herói será sempre arbitrário, legitimado apenas por um uniforme e algumas boas intenções.

Deste segundo grupo, exemplo notável se torna a série do Demolidor ou o Batman de Christopher Nolan. Algo, porém, distingue ambos. “O Cavaleiro das Trevas”, especialmente, espelha dúvidas irreconciliáveis, ausente nos filmes que não são obras.

Decerto, o cinema clássico convive não apenas com resoluções favoráveis. O filme da “questão social”, por exemplo, fornece o espírito de denúncia que trava os personagens em situações impossíveis vencer. Recorde-se “O Fugitivo” (I Am a Fugitive from a Chain Gang): “Eu roubo”.

Igualmente fadado ao fracasso será o anti-herói do filme de gangster, bode expiatório – de “Scarface – A Vergonha de Uma Nação” a “O Pagamento Final” – que redime, com sua própria morte, a culpa por todos os seus crimes.

Porém, em nenhum momento as circunstâncias se mostram tão complexas quanto em “O Cavaleiro das Trevas”. Não se trata de perder ou ganhar, mas da submeter toda expectativa de conciliação a uma pulsão inexorável impossível de conter.

O espetáculo está pronto. Aparentemente, todos ocupam seu devido lugar. Há os vilões, o Coringa e, posteriormente, o Duas Caras. Há também o grupo de apoio – Alfred, Gordon, Rachel e Fox. Prontos a desempenhar suas funções, portam-se – quase – de modo exemplar.

Em sincronia, envolvem-se no conflito segundo o quinhão de suas partes. Assim, ao longo de ações intermediárias, o herói se desenvolve, graças a seu apoio, afirmando suas forças e preparando-se para o final. Mas o final nos engana.

O ápice, ao que parece, se localizaria na derradeira luta entre Batman e Coringa. O filme, contudo, contém uma coda, outra luta, agora com Duas Caras. Aqui se traça um beco sem saída para o herói.

Não é incomum a qualquer personagem solucionar tensões apenas para se descobrir incapaz de viver no mundo que ele próprio ajudou a criar. Em “O Homem que Matou o Facínora”, Tom, o cowboy, elimina Vacancy apenas para garantir espaço ao futuro senador Stoddard.

Contudo, em “O Cavaleiro das Trevas”, o resultado não garante nem ao menos a chance de resolução em qualquer direção. A chave do filme está no desaparecimento de Batman durante o último instante.

Wayne acreditava na possibilidade de inspirar outro herói, que agiria não com os punhos. Dent se tornou sua principal aposta. O promotor prende a máfia, processa o contador oriental, e parece o personagem apto a instaurar a lei em Gotham.

Todavia, os assassinatos em série conduzidos pelo Coringa terminam por atingir o próprio Dent, e uma transformação ocorre. Metamorfoseado em vilão, torna-se o Duas Caras, como um indicativo de um plano mais extenso do próprio Coringa.

Na conclusão, ao invés de nos conduzir a algum motivo que instaure alguma ordem, melhor ou pior que aquela inicialmente apontada, Batman se desfaz. Não deve morrer, pois o herói não é Scarface. Vai, afinal, perder; mas perderá de uma forma muito particular.

Outros personagens se viram em encruzilhadas semelhantes. O filme policial se assenta sobre um homem que pode vencer a batalha, mas nunca a guerra. Sabe-se que cada criminoso é somente um caso, um pedaço do crime em si, problemática mais ampla.

Contudo, no filme policial os esforços, embora se arrastem em direção a uma perseguição infinita para além de cada película, encontram-se protegidos por certa dimensão institucional. Batman, todavia, não pode ser como o personagem deste cinema policial.

Se sua expectativa havia sido a de inspirar outros homens, visando a um dia abandonar a máscara, esta aposta resulta num terrível engodo. Ao invés de criar heróis, produz monstros, como o Duas Caras, que lhe vem não acidentalmente, mas por consequência de seus atos.

Mesmo o Coringa se constituíra por inspiração, um vilão que se quer descobrir como igual. “Não fale como um deles. Você não é. Mesmo que queira ser”. Curiosamente, quer se afirmar como um estranho parceiro.

Torna-se parte de um binômio fundamental, mas parte consciente, criada pela monstruosidade do próprio herói. “Você me completa”, diz. Seria possível supor uma imagem dessas em um formato destinado a elaborar, a partir do conflito, qualquer ordem?

Só se pode entender a visão de Gordon como um autoengano: “Ele é o herói que Gotham merece, mas não que precisa agora”. Pode-se concordar somente caso se considere herói e cidade igualmente terríveis e insanos.

Alegoria que é da guerra de guerrilha – como Bourne e outros bons personagens do cinema recente – “O Cavaleiro das Trevas” nos choca contra um muro. O herói, esse herói contemporâneo decaído, herói sem pátria e sem bandeira, trava uma guerra de milícias, cujo drama reside na proximidade e na distância de todas as circunstâncias que organizaram a expectativa de integração.

Opera em uma forma exatamente idêntica a do formato clássico, do binômio e do englobante. Alguém deveria vencer ou perder, reafirmar a integração para além de sua dimensão inicial. Aqui, porém, isso parece impossível.

As forças em jogo não bastam mais: estão deslocadas frente à imaginação que deveriam incorporar. O que as impede é exatamente a condição expressa nos vários reflexos do projeto de perversão coletiva introduzido pelo Coringa.

Batman foge porque sabe que será perseguido. As circunstâncias que deveriam lhe apoiar estão contra ele: a polícia, os cidadãos, a imprensa, todos se tornam seus inimigos. A apreensão, raiva e ansiedade de cada um deles se dirigem exatamente para seu suposto herói.

O resultado espelha o tipo de desabrochar diabólico proposto pelo próprio Coringa. Não era objetivo do vilão despertar forças destrutivas capazes de lançar os homens uns contra os outros. Não terá seu projeto, enfim, dado resultado?

Presos em um barco, os cidadãos de Gotham mostram sensatos o suficiente para não explodir a outra embarcação repleta de criminosos. Todavia, sua razão não os auxilia no julgamento sobre Batman.

O vilão, então, inverte a sua posição em relação ao herói, afastando-o exatamente do grupo mais relevante: a própria comunidade. Sem essa fantasia, os sonhos do cinema americano não podem se manter de pé. Indiretamente, a expectativa do Coringa se realiza.

Estariam, em “O Cavaleiro das Trevas”, condenadas as ilusões que assentam o cinema clássico – e com elas também o filme de super-herói? No western, elas tinham sido substituídas pela possibilidade tão somente de sobreviver um dia após o outro, com em Peckinpah.

A fuga de Batman deixa dúvidas sobre a chance de se conceder, a este herói, o mesmo benefício. Ao lhe obrigar a fuga, não se oferece ao personagem nem mesmo a chance de ver outro dia. O que reserva, então, o futuro? Nada, talvez.

Por duas vias, mantém-se a expectativa de perversão coletiva em aberto. Antes de ser preso, o Coringa ameaça: a resistência dos cidadãos em tomar parte em sua pulsão destrutiva é apenas temporária. Cedo ou tarde – talvez mais cedo que tarde – sua resistência irá ceder.

A vitória de hoje, então, mostra-se momentânea de forma duplamente assustadora. Não se trata somente de uma situação mais grave que a inicial. Consiste apenas em adiar o próprio caos, sem nunca saber sobre a possibilidade de derrotá-lo.

A circunstância derradeira se torna um impasse, com o recuo do próprio herói, sua dissolução. Não para ceder lugar a outro herói, já que seu substituto, Dent, também se destruiu devido ao mesmo delírio. No final, o espaço da resolução permanece vazio, sem resposta.

Um finale? Ou talvez outro começo? Se poderia um neo-filme-de-super-herói, conduzindo ao limite seus dilemas intrínsecos? Seria um modo de escapar da repetição interminável, numa oportunidade deste cinema, quem sabe, rejuvenescer.

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Posted in: Arte & Estética