Agregar o disperso: Amazon, aplicativos, streaming

Posted on 20 de junho de 2016

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João Martins Ladeira

Não era um anúncio trivial aquele que Amazon fazia em dezembro de 2015. Decerto, já se havia experimentado com streaming ao longo dos anos. Mas, agora, oferecia uma novidade capaz de ultrapassar os ensaios em curso com a imagem na internet.

No Brasil, a novidade não receberia grande destaque. Também, pudera. Começamos somente a tatear a televisão que não é televisão. Ao sul do equador, aquilo que vem ocorrendo mundo afora parece morrer produzindo um eco muito fraco.

A novidade era certo Streaming Partners Program, acordo capaz de se estender rapidamente a cerca de 30 serviços diversos de conteúdo. O que há de novo nisso? Afinal, Netflix não tem também lá os seus acertos com criadores?

Aquilo que está em jogo se percebe apenas ao observar os detalhes, lá onde vive o diabo. Amazon apresentava algo mais que outra tentativa para licenciar audiovisual. Não se trata só de repetir os acordos com criadores a fim de permitir o acesso a seus filmes ou séries.

Desde os primórdios da televisão segmentada se faz tudo sempre igual. Nada além de agregadores para conteúdo, os serviços de infraestrutura distribuem canais. Porém, hoje estas emissoras parecem coisa do passado.

Via streaming – e apenas via streaming – Amazon introduz uma das primeiras oportunidades para definir um formato à difusão online. Apresenta uma plataforma para aplicativos diversos, estas janelas para conteúdo de produtoras grandes e pequenas, antigas e novas.

Mais uma volta no parafuso e as emissoras como conhecíamos, elas e os agregadores a cabo, nós os vemos opacos, borrados no horizonte contra a poeira que sobe. Nesta empreitada, para Amazon, destacam-se, como estrelas, Showtime e Starz, entre outros tantos criadores menos robustos.

Após YouTube, Netflix e Hulu chacoalharem a televisão; desde as primeiras tentativas de salvar, antes de caducarem, as assinaturas a serviços multicanal; a partir de então se vinha experimentando com esta transição, Showtime e Starz inclusos.

Não há novatos no ramo do audiovisual via internet. Todos já ensaiaram aqui e ali com modelos ainda sem forma. Showtime (em 2010), Starz (em 2008), aderem à tentativa de momento para condicionar o audiovisual via internet às assinaturas de televisão multicanal.

Este interlúdio, um esforço para preservar o passado, cede espaço a algo novo: os aplicativos para conteúdo. Showtime publica o seu em janeiro de 2012; Starz, em outubro. O vínculo com o modelo que constituiu a televisão a cabo continua ali, mas por pouco tempo.

Em junho de 2015, Showtime reorganiza este serviço: desatrela-o das assinaturas de cabo-satélite. Segue os passos de HBO, que, em abril de 2014, instaurava o divórcio com o molde de autenticação por negócios de audiovisual segmentado.

Rapidamente, Showtime torna sua novidade compatível com Apple, para, no mesmo mês, garantir a sua funcionalidade a Hulu, Roku e Playstation Vue. Por último, Starz fecha o ciclo com a estreia de um serviço inteiramente over the top em abril de 2016.

Dispensar assinaturas de cabo-satélite implica em lidar não com canais às dúzias, em que convivem, lado a lado, material de estofo e seriados de domingo à tarde. HBO, Showtime, Starz, desagregados, denotam o streaming como algo mais que mero passatempo.

Seria Amazon – a loja virtual; a pioneira em negócios via web; o indício claro, ainda em 1995, sobre a potência de internet – a reagregar produtores de audiovisual, a apresentar ao mundo outro modelo para aquilo que havia sido a mídia mais importante do séc. XX.

Entre 2006 e 2011, Amazon tão somente tateara a difusão da imagem. Iniciara seus experimentos com a venda de conteúdo por download. Em setembro de 2008, mantinha este formato inútil de negociação individual, com o streaming oferecendo-lhe nova lanternagem.

Em fevereiro de 2011, passava a conceder este serviço de streaming para os assinantes de Prime, seu clube de remessa expressa mediante uma assinatura anual. Soa com se encarasse audiovisual como uma cortesia oferecida a bons clientes.

Em 2013, dá início a criação de conteúdo original, retomando esta fórmula tão importante. O próximo passa se torna agregar aplicativos. Soa como uma operadora multicanal, em uma tarefa a qual não apenas elas poderão se dedicar, contudo.

Agregar aplicativos… nada poderia ser mais necessário. Tem-se criado uma dispersão perigosa com a pulverização destes softwares para audiovisual: aqui, um serviço de esportes; ali, outro de documentários; um terceiro de filmes.

Bendito aquele que consegue congregar vários em um único suporte, uma única plataforma. Amazon se responsabilizaria por cobrança e atendimento ao público, tarefas que executa desde os primórdios da internet.

Tudo soa aparentemente tão simples que algumas vezes se esquece das complexidades. Decerto, assina-se um aplicativo com ou sem estes agregadores. Basta buscar por um nome em uma loja virtual e ensaiar três ou quatro toques em uma tela de vidro.

Todavia, este modelo proposto importa por sua lógica. Os aplicativos de conteúdo que prescindem da assinatura a serviços multicanal apontam para a desconstrução dos pacotes zelosamente construídos por operadores de cabo-satélite, pelos quais se travou guerras.

Reagrupados, constroem outras formas de agregação, instituindo parâmetros distintos daqueles que guiaram a televisão segmentada, recapturando-os em outro plano.

A televisão se revê. Aos poucos, surge um padrão não apenas sobre os aplicativos, estas apostas futuras para difusão, mas, também, sobre a reagregação dos próprios softwares de conteúdo.

Como opção, surgem pacotes de criadores associados não mais pela solda que uniu as emissoras do passado. De longe, pareceria a velha televisão multicanal em nova roupagem. De perto, revela a lógica possível de guiar o streaming. 

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