Memória, tempo, invenção: Amnésia e as peripécias da forma

Posted on 20 de julho de 2016

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João Martins Ladeira

Entre Following e Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan explorou lindamente as diversas facetas contidas no tema da inimizade entre dois homens. Amnésia, sua primeira conexão com o grande público, definiu os termos desta preocupação, indicando, no vínculo entre Leonard e Teddy, direções posteriormente exploradas.

Contudo, frente às outras oportunidades em que Nolan se debruçaria sobre o elo íntimo entre adversários, Amnésia se destacava pelo tratamento dado a um tema que, de modo assim tão direto, não mais retornaria: a memória. Aqui, o ser do passado e o contraponto entre dois se associavam diretamente, como uma batalha travada no tempo pela possibilidade de criação.

O filme sugere um labirinto, a construção sofisticada de uma narrativa que se move em duas direções distintas: uma, em preto e branco; a outra, colorida; esta segunda, absolutamente invertida. Contudo, a complexidade reside não só numa história em ordem avessa, ainda que o controle sobre esta técnica angariasse imensa e merecida atenção ao filme.

Atordoante se torna a busca cega de Leonard; mais importante, a forma como ela se pauta por pistas frágeis e incertas que o personagem coleciona. Em sua busca por certo John G (ou James G), homem, branco, ele agrupa evidências que, como descobrimos, terminam talvez por se tornar necessárias exatamente porque falsas.

Testemunha do assassinato de sua esposa em meio a uma agressão que lesa o cérebro do herói e o impede de construir novas recordações, Leonard se afirma como a vítima que toma as rédeas de sua condição e procura sua vingança.

Prossegue em sua investigação guiando-se por um método impressionantemente precário. Carente de lembranças, conta unicamente com notas tatuadas sobre o corpo e fotos acumuladas por uma Polaroid. Através de ambas, constrói seu guia, impulsiona-se adiante.

Teddy, seu contraponto, exerce uma função dúbia. Durante o filme, auxilia Leonard; embora, progressivamente, dê indícios de que controla um conhecimento sobre o passado que o próprio herói, devido à sua lesão, jamais acessará.

Em sua busca para a solução do crime, Leonard descobre que a barreira inexpugnável para esta verdade, por alguma razão que nunca teremos certeza, passa por Teddy. Sua execução se assiste no primeiro instante. As razões se precisa aguardar um filme inteiro para entender.

Rapidamente, percebe-se neste contraponto um falsário, pronto a apresentar versões sempre parciais de histórias incompletas. Suas sugestões terminam por direcionar Leonard para um rumo nem sempre benéfico para o herói.

 

I

A preocupação entre a linha divisória entre mentiras e verdade pareceria, portanto, o centro de Amnésia. De imediato, Leonard sugere um homem verídico, em busca da estabilidade típica à revelação contida na certeza indiscutível. Talvez: mas só quando se enxerga apenas parte da questão.

A indagação sobre o falso e o exato se encontra não somente naquilo que os personagens dizem ou fazem. Reside na forma de Amnésia. A virtuosidade da ordem inversa – a despeito da confusão possível de criar para os desatentos – elabora uma rede precisa de eventos perfeitamente intrincados.

Não há qualquer erro na conexão entre as partes do filme. A quebra de sequencialidade não abstém Amnésia de manter, firme, seu centro. Na vertigem desta coordenação ímpar, toda a película se constitui como uma tentativa convicta da manter a unidade lógica do cinema clássico.

Para compreender – e deslumbrar-se – com Amnésia basta reorganizar as sequências descontínuas para visualizar um fluxo claro de acontecimentos. Na fronteira entre o primeiro e o último plano há concatenação, certeza, verdade. A força da gravidade atrai as diversas partes que se desdobram numa ação contínua, convocando uma imagem do real.

Próximo ao fim da projeção, Teddy expõe – a Leonard, mas também a nós – a natureza deste homem que sabia quem era, mas não sabe mais quem é. O herói teria se transformado em um pistoleiro manipulado, pronto para o assassinato, desde que creia que se trata de sua vingança.

Porém, em que se baseia a certeza de que esta, entre tantas versões já expostas, seria a verdadeira? Outras delas já não haviam sido contadas a Leonard – e ao público? Este poderia ser somente mais um entre outros rodeios.

Acredita-se nesta última versão unicamente por culminar o desenvolvimento da narrativa. Porém – e esse se torna o grande truque de mãos de Nolan – por qual razão considerar esta última versão como definitiva?

Uma crença desta natureza se assenta simplesmente no fato de se tratar da última informação registrada. Afinal, na lógica progressiva da ação, o ponto em que uma narrativa culmina nos deveria expor alguma verdade. Contudo, como sustentar esta posição quando havíamos nos extasiado exatamente pela película carecer de ordem?

 

II

Sugeriu-se que a quebra de sequencialidade em Amnésia explicitaria as circunstâncias em que Leonard se encontra mergulhado. Identificado com o seu herói – esse herói imperfeito, marcado por limites – o filme seguiria por pontas soltas, uma vez que o todo havia se tornado inacessível a nosso personagem.

Talvez, mas apenas em parte. A narrativa ilustra não apenas a mente defeituosa de Leonard, mas a potência de criação de Teddy, este homem sempre pronto a se esgueirar para além da verdade. Aqui, a imagem exerce a autonomia de relativizar – sem nunca quebrar – os cânones da ação, atenta ao imperativo de fidelidade caro ao material cinematográfico.

Teddy se mostra como invenção; e a imagem o acompanha em seus exercícios despudorados de criação. A manutenção da força centralizadora – que, enfim, prevalece – onde estaria ela, então? Em Leonard, no outro extremo? O homem verídico manteria a coerência interna, ainda que a imagem queira rachar as premissas da própria verdade?

Faria sentido. Não soaria casual, assim, que Teddy pareça fadado a encontrar a morte; que sua destruição aniquile, consequentemente, a possibilidade do engodo.

Mas, curiosamente, o engano prossegue. Continua fora da tela. A fala que chega até nós no final: “onde eu estava?”, bem poderia repetir a indecisão após a execução de Teddy, logo no começo. É preciso ter algo para depois. Embora, em seu interior, Amnésia se ordene por aquela lógica meticulosamente concatenada, resta ainda as suas margens.

Antes do princípio – o território ao qual nunca se terá acesso – desmonta-se o formato de ação que o filme se esforçou meticulosamente em manter. Neste extremo, encontra-se a beleza maior de Amnésia, que seu desenvolvimento invertido tão somente anuncia, a sua efetiva virtuosidade. Nunca, jamais, se vai saber o que de fato ocorreu entre Leonard e Teddy.

Está-se realmente diante de um policial que tomou parte em uma vingança; mas, depois, percebendo que ela permaneceria para sempre, resolveu tomar o seu quinhão de benefício? A resposta se encontra na memória inacessível, que não presenciamos nem em ordem direta nem inversa, que não vemos ou veremos jamais.

Esta incerteza se estende para antes do filme, mas não apenas. Reside também para depois dele. Se a derradeira versão de Teddy estiver certa, Leonard prosseguirá aquela sua busca por outros meios. Caso esteja errada, o herói terá apenas cometido mais um assassinato; porém, será o último, de fato.

Caso Leonard encerre esta busca, Teddy estaria mentindo; continua-la por outros meios nos indicaria a verdade. Contudo, este antes e este depois se mantêm como um território impossível de explorar. Amnésia não comporta sequências ou prólogos.

 

III

Todavia, seria Teddy, de fato, o único personagem ávido por invenção? Leonard, em sua busca por alguma verdade, precisa se concentrar naquele seu método que – acredita – mostra-se perfeitamente objetivo. Nada soaria mais absurdo: suas tatuagens e suas Polaroids se transformam em fatos que, por um lado, em parte registra; que, por outro, produz.

Uma destas invenções nós assistimos claramente: Leonard produz um John G para caçar. Até então, as informações que Teddy revela – ou inventa – haviam se tornado o substituto para as memórias perdidas de Leonard. Todavia, em certo momento, a direção se inverte: o próprio Leonard busca um rumo seu, e nem sempre esta procura passa por uma verdade.

No fim, Leonard cria nada menos que a rota a colocá-lo em confronto mortal com Teddy. “Não acredite em suas mentiras”, escreve em uma de suas fotos. A placa do carro de seu oponente ele tatua na perna. A foto que celebrava um possível culpado, Leonard destrói, deixando o caminho vago para um ato equivocado; mas, em sua invenção, estranhamente correto.

As informações de Teddy terminam por se submeter às notas de Leonard, sua dimensão autônoma de ação. Estas notas apontam para várias direções: o registro de um automóvel; uma licença de motorista; as informações sobre a idade, o sexo e a cor do assassino.

Em outro nível, esta ordem de Amnésia – tão repleta de sentidos – indica aquelas criações de Teddy, mas não só. Em cada sequência fora da linearidade, assiste-se às invenções de oponente, decerto; e também algo mais. Estas direções entrecortadas apontam para os vários interesses específicos inventados por Leonard.

Cada direção se encontra numa tatuagem; numa foto; numa nota. E cada eixo se torna uma sequência do filme. Encontrar Natalie e as informações que guarda; descobrir quem é o homem cujo nome está no bolso de seu paletó; compreender quem é esse que uma das suas fotos diz para não confiar. Cada item se conecta às sequências que negam o fluxo à frente.

A ordem invertida indica – também – a dispersão das muitas experiências de Leonard, atendo-se, nelas, exatamente àquilo que o direciona. As diversas tatuagens apontam para vários rumos desconexos de memória, como um quadro reconstruído graças não a uma visão do todo, mas devido somente à vontade que reside na parcialidade.

Nas cenas, não há qualquer ponto de vista capaz de unificá-las. Porém, este traço termina por se tornar não um limite. Decerto, estas cenas se esgotam em si mesmas, evitando qualquer recordação totalizante. Disso resulta uma vida que se vê unicamente de determinado ângulo, obrigatoriamente parcial e incompleto: não um ônus, mas um imenso benefício.

Apreender a dimensão do tempo presente em Amnésia fracassaria caso se tentasse identificar estas imagens como lembranças em termos psicológicos. Os eixos desconexos não são a memória de Leonard; são a do mundo. Representam imagens como manifestações do tempo; neste caso, de um tempo desarticulado, desencaixado.

Leonard se apropria da memória, mas nunca de lembranças. Dada a sua lesão, isto está além de sua capacidade. No fim, esta memória que o envolve termina confiscada por outra intencionalidade, guardada por outro homem: Teddy, seu oponente. Esse seu contraponto envolve o herói: Teddy lembra coisas que Leonard não poderá nunca retomar.

Contudo, o herói se nega a ater-se a estes limites. Seu orgulho com aquele “método” residia em construir uma forma de lidar com sua “condição”. Sonha com a descoberta de uma fórmula fixa para descobrir a tão cara verdade. Na falta de lembranças, elaboraria registros que a substituiriam. Pensa em si como homem verídico. Descobre-se coisa bem diferente.

Leonard se remete a idades do tempo, que presenciamos quando assistimos ao filme. Suas tatuagens indicam a sua intenção. Expõem sua vontade, a partir da qual toda a montanha pregressa de evidências se ordena. Assim, tornam-se necessariamente desconexas, e, por isso, sua dissociação retoma o tempo como potência, como liberdade, como criação.

 

IV

Se a beleza do “método” de Leonard reside em oferecer integração a partir de uma perspectiva limitada, Sammy Jankis se torna o melhor exemplo desta distorção por ele criada. Seu caso oferece direção a um eixo de intenções, impossível de identificar como verdade.

Uma das tatuagens diz: “lembre-se de Sammy Jankis”. Uma lembrança retomaria a visão totalizadora dentro de um fluxo linear ao qual se teria acesso. Como já se sabe, isto, para Leonard, representa uma porta fechada, tornando tal opção irrealizável.

A questão passa a ser a sua impossibilidade de acessar algo localizado para além daquelas bordas deste filme. Como consequência, precisa inventá-lo. Como o melhor indício, Jankis, para além desta fronteira, transforma-se numa opção entre duas possibilidades.

Por um lado, se tornaria um homem sem a capacidade de organizar um sistema coerente para organizar suas ações – ao contrário de Leonard – e que termina envolvido em um teste, no qual o desejo pela verdade nutrido por sua esposa resulta na destruição dela própria.

Por outro, Jankis se constitui tão somente como uma distorção que retoca a orientação dada por Leonard a estes seus momentos. A mulher de Leonard seria a esposa diabética; Jankis, um homem solteiro. A resposta, jamais saberemos.

Da ilusão de verdade, surge a vontade que a permite ultrapassar. Isolado, perdido, este personagem se encontra sozinho como poucos no cinema. Porem, não significa que se mantenha estático: ao contrário. Sua falsificação nega o maior de todos os engodos.

Profundamente ativo, nosso herói se move como pode. Consegue escapar do passado, ater-se ao presente, dirigir-se somente ao futuro. Está sempre em um dos pontos em que este agora se forma em direção ao depois, e nada mais.

Revela sempre uma imensa capacidade de agir. Uma ação inconsequente, guiada para o próximo ponto, sem a obrigação canhestra e pesada de usar a lembrança para se orientar. Sem ela, sem a parte do passado que se volta para o presente, Leonard exerce a liberdade do artista ingênuo apto a inventar.

Logo, estes dois oponentes não se encontram assim tão distantes. Dependem um do outro. Enfrentam-se não apenas no âmbito da ação, o que seria banal, mas num plano que se lida também – o mais importante – com a memória que os envolve; com o fluxo linear do tempo ao qual se contrapõem; com a criação que, a seu modo, ambos engendram.

O herói supera – em muito – o seu suposto oponente: Teddy, que se descobre um pseudofalsário. Leonard, de fato, mostra-se o verdadeiro criador. Constrói a autoenganação da qual emana um gênio inventivo único, produtor de sua própria potência, livre, na desobrigação suprema de quem a nada responde.

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Posted in: Arte & Estética