O preço de um aplauso: ‘O Grande Truque’

Posted on 5 de janeiro de 2017

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João Martins Ladeira

É um truque muito simples. O ilusionista desaparece; desperta certa ansiedade na plateia; por fim, retorna, saciando todas as expectativas. Repetidamente executado, torna-se um prazer previsível. A este, soma-se um peso adicional: a destruição que, em si, congrega.

Queimando seus dias, dois irmãos desempenham seu papel no “Homem Transportado”. Uma noite, o primeiro entra na caixa e o segundo sai dela; na outra, trocam-se as posições. A força da mágica implica enganar o mundo, ocultando a identidade de um e expulsando-o da vida.

Seu oponente responde à altura: encontra uma máquina que exige a sua própria destruição. O apetrecho o põe em constante dúvida: a técnica o torna dois, exatamente como a natureza fizera com seu rival. Porém, um deles terá de se afogar, enquanto o outro ressurge.

Quem é quem? “É preciso coragem para subir naquela máquina toda noite, sem saber se você vai ser aquele que ressurge no palco ou o homem na caixa”. Ambos se atam pelos truques que não param de repetir, pois não há outro que consigam inventar.

I

Na obra de Nolan, “O Grande Truque” – na aparência – ocuparia um lugar restrito. Soaria como uma repetição de temas que lhe são caros. De novo, se estaria diante de dois oponentes em confronto. Mas não se trata disso.

De fato, “O Grande Truque” versa sobre a magia, sobre a ilusão: refere-se à arte e aos artistas. Surge o tema: qual o risco da verdade num mundo que precisa se guiar pela criação? A resposta reside no vínculo não apenas de dois personagens, mas de quatro.

Têm-se aqueles dois pretensos artistas. Um depende de um truque que se assenta num fato natural, mas se suporta somente pelo autoflagelo. Outro, numa técnica maligna e homicida. A seu lado, suas duas mulheres, ambas criaturas verídicas.

Veem-se os personagens: Borden e Angier, Sarah e Olivia. A primeira magia se assenta nos gêmeos que tomam o lugar um do outro não apenas no interior de um espetáculo, mas – mais importante – na vida que vivem fora do palco.

Precisam submeter toda a sua existência ao truque para tornar tal mágica possível. Inventam não apenas um engenho, mas também um engenheiro, Fallon, e decidem, num supremo ato ascético, sofrer o peso de anular a si próprios a fim de conduzir a sua arte.

Na ânsia do aplauso, o outro ilusionista elabora, a partir da tecnologia, efeito semelhante. Uma máquina permite a sua duplicação, mas não sem custos. Tem de se suicidar a cada noite, permitindo que, sempre, um duplo recém-criado tome seu lugar até o próximo espetáculo.

Apaixonados por suas peripécias, movem-se por um pretenso desejo de superação. Obsessão natural para Borden, teria de ser construída para Angier, alimentando-a com a vingança pela morte de sua esposa, dando origem, todavia, a uma vontade que a ultrapassa.

Contrapostas a ambos, cada um dos mágicos se depara com uma mulher – uma esposa e uma amante – ambas atentas ao desejo de seus homens. Dramático, de fato, torna-se o destino de Sarah.

Ela que percebe – talvez –a identidade entre o ilusionista e o engenheiro, prefere se sacrificar frente à incapacidade de arrancar-lhes a verdade. Olivia, por sua vez, escorrega de Angier para Borden devido à insistência do antigo amante para que minta àquele que se tornará seu novo.

Num ato idiossincrático de traição premeditada, troca de posição apenas para encontrar outro indivíduo igualmente incapaz de – segundo o seu julgamento – entregar-se a si próprio. Abandona Borden, afinal, por distinguir nele alguma inabilidade para manifestar seu luto.

Esta busca por autenticidade massacra a todos. Torna-a irreconhecível quando, enfim, surge. Sarah se dilacera por escutar, cada dia de um gêmeo, que a ama. Martiriza-se quando sente que tais palavras são verdade e quando não são.

Se, próximo do fim, Sarah escuta que Borden a ama, mas “não hoje”, Olivia, antes de partir, ouve do mesmo homem que a ama verdadeiramente. Fatos reais, que, na dúvida que nasce da busca por certezas, anula a chance de uma vida sem partições.

A sinceridade, incapaz de se estender à vida, sacrificada que fora pela repetição ascética, soa insatisfatória tanto para uma quanto para a outra mulher. “Ambos amávamos uma delas. Ambos tínhamos metade de uma vida. O bastante para nós, mas não para elas”.

II

Decerto, aqueles dois homens, como mágicos, vivem do imperativo de ludibriar seu público. Mas não apenas. Assentam-se na expectativa de enganar também um ao outro, entremeando-se em engenhos que terminarão por se esgotar apenas com a morte.

A máquina de Angier decorre de uma viagem a América, que, contudo, resulta de uma sugestão falsa de Borden. Ilude o rival com o engodo contido no nome de Tesla, moeda para salvar Fallon, seu suposto engenheiro.

Na verdade, Tesla e Borden jamais haviam se encontrado. A associação entre o mágico proletário e o inventor nada mais era que um encontro fortuito durante uma exposição de ciências, isca suficiente para fisgar o oponente.

Há o diário falso de Borden, escrito para Angier. Em meio a códigos que apenas escondem outro contratempo, o segundo se frustra frente ao texto roubado por Olivia. Mortal, porém, torna-se a armadilha que conduz o primeiro a um dos cadáveres do opositor, e, daí, à forca.

Qual a razão de tanto investimento? Se Angier surge como um homem movido por vingança, tal desforra vai se tornando um propósito distante. Por fim, importa apenas a aprovação das massas, pautada por critérios que se confirmam através do regozijo.

Ele mesmo afirma: pouco importa o nó em sua esposa morta, mas apenas o segredo do “Homem Transportado”. Borden, sabendo da superioridade de seu truque, não resiste ao embate com sua contraparte. Anular o outro permitiria ao sobrevivente ficar, enfim, a sós com a turba.

Contudo, não há triunfo, apenas destruição. O gêmeo morre, e, com ele, o próprio truque. Angier é assassinado, mas não apenas pelo tiro do rival. Destrói-se diversas vezes, em todas as noites em que um de seus duplos se afoga naquele tanque.

Se toda a miséria de Boden reside exatamente no fato de que ele nunca se trai; se sua dedicação é extrema, a ponto de destroçar o corpo do irmão e a vida da esposa; motiva-o pensar em si como um grande artista.

Um autossacrifício absoluto, nos diz, se tornaria o único modo de se livrar da própria matéria. Postura que, no outro extremo da mediocridade, termina por se encontrar com as decisões de Angier.

Este outro homem se vê como um tipo que entende a plateia. Sabe que ninguém ignora o quanto o mundo é, de fato, sólido e miserável. Ainda assim, acredita-se capaz de produzir um engodo que arranque uma expressão de espanto, mesmo que ela dure apenas um segundo.

Suas atrocidades se mostram típicas aos anões que se pensam acima da multidão, apenas para se mostrar a nós em toda a sua degeneração. Artistas após certo ponto incapazes de criar, atrelam-se ao que já é, e não ao que poderia ser.

De um lado, a mutilação – metafórica e concreta. De outro, a troca da criação por fixação. O truque assassino, Angier nos diz, será o seu último. Afinal, ele sabe que se trata de um desejo: desejo obsessivo, mas, ainda assim, desejo.

E não tarda a escutar: “obsessão é um jogo para jovens”. Angier sabe que, se pôde um dia criar, hoje já não o consegue mais. Está velho e desistiu disto que é arte. Surge, assim, a última questão. E Nolan?

III

Este verdadeiro artista mantém-se sempre nesta linha tênue entre abordar o falso, sem deixar de se ater à expectativa de representar perfeitamente a identidade entre a narrativa e alguma suposta realidade. Nolan, como seus mágicos, nos dá aquilo que queremos.

Não pode haver deslize em seus enredos, do mesmo modo que não pode existir o inexplicável em seus filmes. O gênio de Nolan reside neste limiar. Decerto, não há muitos diretores, hoje, capazes de levar o cinema contemporâneo a um grau tão preciso de sofisticação.

Contudo, o fim de cada espetáculo sempre nos deixa com a sensação de que Nolan ri de nós, entendendo a felicidade do público em compartilhar da plena identidade que se fecha no círculo de uma explicação plausível.

Decerto, alguns desfechos se mostram incômodos aqui e acolá, como o pião de “A Origem”. Mas, exatamente no momento em que poderia atacar o sonho verídico com mais força, hesita. Por fim, o diretor pende para o vínculo de causa-consequência.

Nosso artista zela por um universo ordenado com perfeição. Pareceria impossível para Nolan – e também para o cinema contemporâneo – lidar com a abertura para o falso; com um espírito moderno que, com seu gênio, este criador tanto se esforça por sufocar?

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Posted in: Arte & Estética