O que se fala, o que se vê: Corpo Elétrico e sua perspectiva

Posted on 21 de outubro de 2017

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João Martins Ladeira

A crítica parece ter sido unânime em relação às qualidades de Corpo Elétrico. O elogio da diversidade e a valorização de universos com escassa atenção – trabalhadores industriais, migrantes e imigrantes, gays e travestis – destacaram-se como marcas do filme. São atributos de inegável valor. Além destes traços contundentes, Corpo Elétrico talvez transite numa região ainda mais potente, sem se limitar aos temas que aborda, por mais relevantes que sejam. A obra versa sobre tais conteúdos e a partir deles produz imagens muito particulares. Como um todo, ponto pacífico da recepção esteve na beleza de certas cenas, e a caminhada ao sair da fábrica, na qual a câmera cruza com diversos grupos, maiores ou menores, não passou despercebida. Talvez visões como esta terminem por conter o verdadeiro valor do trabalho, numa propriedade que reside na tensa relação entre tais quadros e o real.

Corpo elétrico se constrói sobre uma forma feita para nos enganar. Caráter rico do filme reside em distrair a nossa atenção, arvorando uma semelhança sempre falsa com o mundo. Este realismo a partir do qual as suas ações se desenrolam deve muito a um resultado obtido através de certa lógica para a construção de roteiros – uma em relação a qual Marcelo Caetano não consiste em absoluto num inovador, embora consiga manuseá-la com intensa habilidade. A ideia de associar cenas inicialmente improvisadas, mas posteriormente retrabalhadas, inserindo-as como parte de um projeto metodicamente ensaiado; de apropriar-se de atores profissionais pouco conhecidos, assim como daqueles outros atores que se profissionalizaram no exercício da atuação não profissional; ambas as técnicas garantem esta profunda identidade entre o cinema e a vida.

O resultado guarda um compromisso com o cotidiano, que se materializa no ritmo de seus diálogos, profundamente coloquiais em termos tanto de tom quando de conteúdo. Num nível ainda mais intenso, alcança esta semelhante através da fotografia fortemente despojada de qualquer adorno, em cenários quase documentais. As ruas de São Paulo, as casas, a fábrica, as roupas – e os rostos da película, principalmente estes rostos –, todos querem nos incitar a esta identificação. Estas faces contêm uma força do filme. Não é casual que em grande parte dos enquadramentos se dê pouca importância para os planos de conjunto. Embora parte das ações se passe na casa de Elias, nunca conseguimos obter sequer um retrato preciso deste espaço. Da fábrica, tão essencial, tem-se a sensação que ela só aparece quando isto não se pode evitar de qualquer outro modo.

Os detalhes das muitas feições constroem esta identificação, funcionando como um meio para vermos a nós mesmos na tela. Há uma declaração interessante de Caetano, publicada no Huffington Post Brasil, sobre esta qualidade de seu filme. Nela, o diretor se pergunta qual a razão de uma prática tão usual em certo cinema, no qual se constrói enredos sobre pessoas comuns, embora protagonizados por atores famosos munidos de sotaques estilizados à la novela das oito. Em alguns destes filmes, apresenta-se ao final da obra certa sequência de faces triviais, capturadas da população. A sua questão: por que elas aparecem somente no fim, e não ao longo de todo o espetáculo? Partindo deste problema – por mais que ele já tenha sido solucionado há décadas pelo cinema moderno – o trabalho constrói um de seus traços mais relevantes.

Se Corpo Elétrico se desenha na cumplicidade obtida por esta semelhança entre obra e expectador, a construção de sua narrativa procede de modo a subordinar-se a esta marca, e não o oposto. A história serve para dar vazão a esta identidade, ao invés de utilizá-la de modo instrumental. Já seria suficientemente fácil identificar as relações tupiniquins de trabalho num instante como aquele em que a proprietária da confecção diz a Elias, enquanto se despede do assistente para as suas férias em Londres, que ele não se desgaste demais na fábrica com horas-extras em excesso: que leve trabalho para casa, então. Ou quando o gerente lhe aconselha a não se misturar demais com os outros trabalhadores, uma vez que seus patrões têm planos bem guardados para ele. As falas importam, mas não apenas. Corpo Elétrico não se atém a tais diálogos – vai além.

O filme se ordena por uma apropriação fotográfica que se define não pela reprodução, mas pela criação estabelecida através da conexão com imagens do mundo. Nesta reconstrução, entre tudo o que se mostra, notável se torna a total ausência de julgamento. Seu material se desdobra sem que se perceba qualquer pronunciamento sobre aquilo que se vê. São atos corriqueiros estes que se encadeiam, como se estivéssemos a observar a vida de qualquer um de nós. Não se compreende muito bem em que direção seguem, embora não se consiga esquivar de seu fluxo. Esta identidade contida no próprio cotidiano constrói a distância que separa qualquer mecanicismo pretensamente representativo do efeito intelectual obtido através da identidade física entre quem vê e aquilo que enxerga.

Sim, não existe julgamento; mas existe projeto. A despeito desta identidade entre o real e a ficção, mesmo uma observação desatenta nos informa que não se lida com o que é. Corpo Elétrico se debruça sobre aquilo que poderia ser. Indica algo com que se sonha. Preza pela mais intensa convivência entre as multiplicidades intensamente contrapostas. Quem reconhece tais ruas e rostos sabe que aquilo que se vê, por mais realista que pareça, apenas com muita dificuldade se compatibiliza com o mundo. Noivos prontos a se casar numa Igreja Batista dividindo o mesmo espaço afetivo com travestis que vivem de seus shows; conversas não problemáticas entre amantes sobre outros amantes: a autonomia de escolha e de convívio entre muitos corpos que parecem ter como único compromisso o prazer remonta a Whitman – mas Whitman é de papel, e Corpo Elétrico é um filme.

Este não é o mundo em que vivemos. Corpo Elétrico fala não sobre um tempo que é, mas daquele que – espera-se – um dia poderia vira a ser. Mais importante: produz imagens sobre ele. Elabora um relato não sobre o hoje, mas sobre o futuro – só que a partir do cinema. Em nenhum instante isto permanece tão claro quanto na famosa cena em que o grupo de colegas caminha. Aparentemente simples, a sequência surge como um daqueles momentos que sugerem certa trivialidade, mas que só se obtém mediante um cuidadoso ensaio. O que se consegue quando se observa o modelo desempenhar o seu papel se revela não apenas no personagem que se interpreta, mas no brilho da vida que surge. Não existe alegoria nesta sequência – ela simplesmente é uma experiência tornada visível. Em seu sentido mais preciso, é uma imagem.

Caetano – novamente – não consiste no primeiro realizador a se apropriar desta marca: seu mérito se encontra em alcançar tal resultado por um caminho próprio. Para isto, seu trajeto até tal efeito se assenta na experiência com o modelo, mas não apenas. Aponta para aquele método de elaboração improvisada que confia na redenção obtida a partir do vínculo com a realidade, mas não somente: vai além. Ao trabalhar a imagem cinematográfica e a narrativa carente de discurso, associando-as ao desempenho retirado dos atores, chega-se a uma mescla particular de efeitos. O resultado se torna uma indissociabilidade entre este conjunto distinto de elementos, fazendo com que construam um emaranhado. Sem qualquer uma destas facetas, Corpo Elétrico dificilmente alcançaria o resultado obtido – e o sentido da resolução da narrativa sobre este curto momento de encontro também desapareceria.

Afinal, os afetos que constroem o trabalho começam quando Elias conta a Artur que, dada a chegada do final de ano e a carga intensiva de trabalho – contradição das contradições – ele pôde estabelecer vínculos mais próximos com seus colegas de fábrica. No conturbado período de expansão geométrica de encomendas, é o desdobramento de tais laços que permite observar o instante de aproximação destas pessoas, por razões que nem elas mesmas conseguirão depois explicar. Não sabemos quais os rumos de todas aquelas relações quando se encerra o filme: talvez elas se percam. Aquele ciclo termina quando Wellington diz adeus a Elias. O momento tem um sabor de despedida, como um daqueles instantes que só se repetirá novamente em circunstâncias difíceis de vislumbrar. O encontro se deu, e terminou – parece difícil dizer quando a mesma janela se abrirá outra vez.

A ideia de uma representação equânime para todas as diferenças soaria como a profissão de fé em torno de um multiculturalismo; mas não é nada disso. Não se trata de oferecer espaços delimitados para os personagens segundo cotas capazes de inserir num mesmo filme o maior número possível de minorias. A solução seria meramente contábil, mas não cinematográfica. A valorização de outro universo corre sempre o risco de se tornar um aprendizado que pouco se distingue de um curso instrumental de idiomas, um treino funcional de uma língua ainda desconhecida.  O que se consegue através de Corpo Elétrico consiste numa imagem cujo principal mérito reside no oposto de um mero retrato. Esta imagem que se obtém permite ver uma experiência de emancipação, e não apenas pensar sobre ela – e este se torna o êxito mais intenso do filme.

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