O que fazer quando se está morto?

Posted on 20 de maio de 2018

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João Martins Ladeira

Lançado em 1995, Coisas Para se Fazer em Denver Quando Você Está Morto (Things to Do in Denver When You’re Dead, de Gary Fleder) não foi exatamente um sucesso. Com um orçamento de US$ 7 milhões, rendeu míseros US$ 500 mil, num resultado que contrariava as expectativas de momento sobre os filmes que pretendiam repercutir o estrondoso sucesso de Quentin Tarantino. Na crença de que trabalhos capazes de seguir seus passos desfrutariam da mesma recepção, Coisas revisitava várias marcas inseridas naquela geração por este outro autor. Havia um gosto pelo absurdo não muito distinto àquele típico a Pulp Fiction: Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994). A diferença estava na síntese imperfeita de Coisas. Como um amálgama que nem todo criador consegue realizar a contento, seu arranjo tornou-se difícil de ser claramente percebido por público e crítica. Contudo, embora Fleder patinasse aqui e ali, seu esforço não se mostrava de todo desprezível.

Qual era a beleza de Pulp Fiction? Estava em entremear acontecimentos típicos à mitologia do filme de crime com circunstâncias corriqueiras ao cotidiano mais banal. Existia uma tensão entre o que há de trivial na vida e este mundo marginal. Tarantino gosta de citar a literatura de Elmore Leonard, e a cena em Miami Blues sobre o assaltante que perde os dedos durante um roubo, foge, mas, ao se recordar de que os seus restos podem incriminá-lo, decide retornar ao local apenas para descobri-lo fechado conferia inegável humor negro à trama que bem poderia ser a de alguém que, após comprar um colar para sua esposa, percebe que esqueceu seu chapéu na loja de joias e não consegue recuperá-lo. Coisas é também repleto de situações inusitadas. Versa sobre um gângster que decide se livrar do crime, o que o conduz a uma sucessão de divertidos fracassos, em risos que mascaram um sentimento amargo.

Tudo dá errado. Os personagens ilustram a distância patética entre certas expectativas e a incapacidade de realizá-las. Em Coisas, a solução para o impasse entre sonho e realidade ocorre na conclusão do filme, ao vislumbrarmos uma vida após da morte, melhor frente à malfadada existência em carne e osso. Os personagens serão todos consumidos, mas ainda vamos revê-los juntos uma última vez. Era um cumprimento usual entre estes bandidos uma saudação incompreensível. “Drinks de lancha!” é o que diziam uns aos outros, e, neste último instante, vemos do que se trata. Quando confinados à prisão – nos explicam lá pelo meio da película – o sonho de todo homem era estar em pleno mar, compartilhando a embarcação e suas bebidas. Eis que, após a autodestruição se tornar o destino de todo o bando, os comparsas se reúnem naquele barco com que tanto sonharam. Neste momento, há um vislumbre de que o esprit de corps pode não ser de todo inútil.

Mas não apenas. Existe outra fantasia em Coisas, localizada numa imagem sobre a família. O único legado concedido ao protagonista se torna um filho inesperado, numa solução que lhe permite não desaparecer de todo. A viagem de volta da legalização sugere a expectativa sobre um caminho não percorrido. Não é um conceito desconhecido este do bandido em busca de tal tipo de redenção, e a principal referência é sempre O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972, de Francis Ford Coppola), no ímpeto ingrato de Michael por redirecionar os negócios dos Corleone. Tampouco se refere a um tema corriqueiro. Na verdade, poucos exemplares do gênero lidam com esta ideia. Um deles, O Pagamento Final (Carlito’s Way, 1993, de Brian De Palma) tem como ator ninguém menos que o próprio Al Pacino, e o personagem principal de Coisas, Jimmy “O Santo” Tosnia, é Andy Garcia, antes visto exatamente em O Poderoso Chefão III (The Godfather: Part III, 1990)

Coincidência? Se o tema da legalização conduz obrigatoriamente à imaginação de Coppola, é porque repercute seu interesse pessoal numa visão tradicional sobre o clã, correndo todos os riscos possíveis ao idealizá-lo. No livro de Puzo, a fixação de Michael em limpar os Corleone tem pouca dimensão, além de se encontrar praticamente ausente no horizonte de Vito (Marlon Brando). Mesmo enviesado, Coisas reúne a fuga do universo criminoso e a garantia de descendentes. A atividade legal que Jimmy escolhe se mostra um negócio no mínimo inusitado. “O Santo” investe numa produtora através da qual parentes mortos deixam vídeos para seus descendentes – um empreendimento que, para ele, se mostrará útil, mas não pelas razões planejadas. Os negócios vão mal. Como se não bastasse, sua outra vida parece insistir em tomá-lo de volta. Um chefão, figura decrépita reduzida à cadeira de rodas por um tiro que o deixa tetraplégico, convoca-o para certa missão.

A proposta d’“O Homem com o Plano” (Christopher Walken) não envolve qualquer negócio, mas possui uma finalidade pessoal. Bernard (Michael Nicolosi), seu único filho, após ter sido chutado por uma antiga namorada, transforma-se num pedófilo capaz de perseguir meninas brincando de pula-corda em parquinhos públicos. Eis a ideia d’“O Homem”: uma sova no atual namorado da jovem ingrata convenceria a moça a reatar com o seu antigo namorado. Para realizar a missão, Jimmy reúne um grupo de bandidos medianamente competente, com uma exceção. Um deles, Critical Bill (Treat Williams), revela-se um psicopata incapaz de conter seus impulsos. O plano termina mal. Meg (Sarah Trigger) e o seu amante de então acabam mortos, e “O Homem” decreta que a gangue deverá pagar pelo erro.

Quando a figura demoníaca convoca “O Santo” definitivamente para o inferno, iniciam-se duas narrativas paralelas. Ambas fazem justiça ao apelido que Jimmy carrega por ter iniciado o seminário apenas para descobrir que a sua vocação como pastor estava em zelar por ovelhas que viviam nas ruas. Em cada um dos enredos, vislumbra-se um senso de obrigação que define a personalidade d’”O Santo”. A primeira se volta ao esforço de manter seus homens vivos. Mais uma vez, o personagem falha. Um a um, seus comparsas vão sendo executados por uma espécie de anjo da morte, Sr. Shhh (Steve Buscemi). O exército não consegue se manter unido por um general incerto sobre as funções que deveria desempenhar, talvez porque o seu horizonte resida em outro lugar.

Eis que se percebe a segunda trama, e esta envolve duas mulheres. Que curioso: esta outra direção se refere não às ruas, mas ao lar. Há Lucinda (Fairuza Balk), a simpática prostituta que Jimmy parece ter assumido como tarefa defender. Contudo, somos também apresentados à outra jovem, com quem “O Santo” nutre uma fantasia que ecoa a redenção contida na vida respeitável. Aqui, distingue-se o ato supremo de resignação deste nosso herói quando encerra seu romance com Dagney (Gabrielle Anwar) após perceber que os capangas d’ “O Homem” a incluíram em sua lista de vítimas. A legalidade impossível se atrela ao amor inviável

Surge então uma brecha para a vida burguesa que esperaria por Jimmy caso o futuro com Dagney se concretizasse. Casualmente, Lucinda propõe a “O Santo” uma ideia a princípio absurda. E se eles tivessem um filho? No instante em que é pronunciada, a sugestão cai mal. Mas, conforme a história de Jimmy se complica de modo irremediável, esta opção se torna tudo que lhe resta. Como exemplo da virtude incapaz de fugir ao confronto com seu destino, nosso quase herói não suplica perdão ou se esconde covardemente pelos cantos. Ele acelera radicalmente seu próprio destino após assassinar Bernard, o centro de sua desgraça. Frente a tal ato, a morte se torna mandatória. Na sequência infeliz de acontecimentos, sua alternativa se torna a posteridade que apenas Lucinda lhe oferecerá.

Deste modo, Coisas se revela um filme sobre as fantasias irrealizáveis em vida. Existe aí a redenção impossível. A felicidade precisa esperar pela dissolução deste mundo, pela ressurreição, por outro despertar. A existência que sobrevive à morte reside na figura paterna que Jimmy escolhe se tornar, exatamente quando a de homem vem a ser roubada. Seu último ato se torna numa mensagem post mortem deixada para sua prole através do mesmo serviço que nunca lhe rendeu nada em vida. Um delírio sobre a família ronda o filme, tema jamais desenvolvido a contento, mas que aponta para o mito no qual O Poderoso Chefão se destaca.

A aclamação de O Poderoso Chefão se deve, entre muitas razões, à combinação realizada entre a narrativa de gângsteres e a inusitada conexão deste gênero com o romance familiar. O charme imposto à trama pelo universo doméstico dos Corleone garantia um tom sóbrio ao universo de crime. O lar idealizava o Dom, concedendo ao personagem certo espírito de masculinidade conservadora ao encenar uma ideia convencional de família. O Padrinho era certamente um homem de negócios; antes disso, porém, era principalmente o centro da família, papel do qual jamais abriria mão. Toda a sua fortuna de nada serviria sem o poder de manter os Corleone unidos, justificando a recriação de uma hierarquia na qual cada um – servos, mulheres e vassalos – conhecem seu lugar.

Esta família ideal se torna aquilo que Michael jamais conseguirá garantir. Seus caminhos o levam numa direção distinta. Este anti-herói descarta os seus elos humanos mais caros em prol do poder. O Poderoso Chefão II (The Godfather: Part II, 1974) se torna indispensável por complementar tudo que, no primeiro filme, permanecia obscuro. O segundo trabalho se constitui através da contraposição de Michael com o jovem Vito (Robert De Niro). Este recorrente paralelo entre passado e presente possui o efeito de explicitar, para a vida de Michael, o seu sentido – ou, quem sabe, a sua falta. Tal contraponto deixa claro um fracasso. Ao avesso de seu pai, o herdeiro se torna a face do capitalista norte-americano do pós-guerra, o homem para o qual nada importa a não ser as margens de lucro em constante progressão.

As atrocidades de Vito, por piores que sejam, estão envoltas numa névoa ideológica muito potente, legitimadas pela unidade do clã que o Padrinho defende a todo custo. Suas perversões se justificam ao recorrer a certa visão sobre pais e filhos. Vem daí o desejo por um império legalizado, indicando o ponto mais bem sucedido da unidade patriarcal e, ao mesmo tempo, capitalista. Este objetivo Michael jamais realizará. Embora lhe concedam um poder imenso – muito maior que de seu antecessor – as decisões do herdeiro vêm acompanhadas pela imensa pobreza emocional de sua vida privada. Nunca é demais lembrar que o filme se encerra com o assassinato do próprio irmão. No pior dos dois mundos, para ele não se concede nem a respeitabilidade burguesa nem a conformidade plena com a sua posição. O mais novo dos Corleone terá de escolher: os negócios ou a família, pois jamais poderá ter ambos.

A fantasia paternal ressurge a partir do nonsense que caracteriza Coisas, embora sem as contradições acima descritas. Quando, em meio a mafiosos perversos e companheiros de batalha insólitos, Jimmy se decide por garantir um sucessor, a tentativa de se tornar um homem de família visa à aura que apenas Dom Vito conseguiu reter. Mesmo com uma prole torta – afinal, não fomos avisados que, com os genes destes pais, a criança talvez se torne o próprio anticristo? – sua preocupação com a família o salva. Quando Jimmy compra a saída de uma vida da qual não pretende mais participar, dela desistindo, deparamo-nos com a redescoberta do elo entre a legalidade e a família. Uma vez que o nome de Tarantino foi aqui mencionado, nada mais justo que lembrar o oposto desta ideia.

Contida em Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), um dos mais belos exemplos do contrário da comunhão doméstica, está a perigosa solidão da camaradagem masculina. Num extremo, existe este mundo fechado em torno do clã. Em outro, vê-se um inverso correlato que gira ao redor da gangue, na poderosa aliança entre homens trancafiados no bando. Tal introspecção se dá não por gosto, mas por um mecanismo de sobrevivência. Estes homens são soldados, membros de um exército na constante iminência do ataque inimigo. À sua frente se encontra sempre o risco recorrente de morte, em relação ao qual tais personagens se recolhem no casulo da guarnição. Dado que outras tropas espreitam sempre do lado de lá do campo de combate, a destruição imprevisível faz com que a gangue se feche numa unidade, que, através do senso de dever, garante sua sobrevivência.

No filme de Tarantino, os companheiros de caserna que claramente se discerne são Larry, o Sr. White (Harvey Keitel), e Freddy, o Sr. Orange (Tim Roth), no respeito do primeiro pela bravura do segundo, o soldado ferido no bom combate, assim como na frustração de um deles ao descobrir tardiamente que na verdade o outro faz parte do lado inimigo. Há o senso profissional do Sr. Pink (Steve Buscemi), como num resguardo constante quanto aos atos irracionais do Sr. Blonde (Michael Madsen), cuja falta de medida o torna um soldado depravado, de uma injustificável violência. A figura do general está em Joe (Lawrence Tierney), e em seu filho que mais parece um tenente, Nice Guy Eddie (Chris Penn).

Famílias prosperam, como os próprios Corleone, e isso ocorre porque certo tipo de união criminosa, como em O Grande Golpe (The Killing, 1956, de Stanley Kubrick), remete ao sonho de que o dinheiro do roubo assegurará uma vida confortável aos casais. Johnny (Sterling Hayden) e Fay (Coleen Gray), ou o triângulo formado por George (Elisha Cook Jr), Sherry (Marie Windsor) e Val (Vince Edwards), estão todos em busca por um lugar na terra de oportunidades. Mas, embora os soldados de Cães de Aluguel obviamente visem ao ganho, eles são homens em uniformes cumprindo ordens, desempenhando o seu papel como bons profissionais. Para eles, não há família para as quais retornar. Em sua lógica do dever e do profissionalismo, vê-se um mundo do qual foram expelidos esposas, filhos ou lares.

Quando Coisas nos apresenta Pieces (Christopher Lloyd   ), Franchise (William Forsythe), Easy Wind (Bill Nunn) ou Critical Bill, está nos mostrando este bando. Mas quando nos aponta também para Lucinda e Dagney, passa a falar sobre famílias. O trabalho de Fleder coordena signos, combinando-os na espera de um resultado que o diretor parece nunca ter alcançado. As mesclas que produz entre um e outro modelo surgem como uma síntese pouco convincente. Elas pareciam mais fazer parte de um hype de momento que de uma visão artística consciente. Porém, estes signos continuam lá, falando por si próprios, confundindo o expectador quando ele olha alhures, e não para imagens que lhe concederão prazer apenas quando sua leitura terminar por preenchê-las.

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Posted in: Arte & Estética