Charlie Kaufman e a vertigem

Posted on 14 de outubro de 2020

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Enfim, o roteirista-diretor retorna a seu cinema absurdo, e, agora, parece ter trabalhado sua técnica de modo a torná-la mais límpida do que nunca.

A trajetória de Charlie Kaufman após Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008) é uma daquelas infelicidades que atingem alguns artistas. É igualmente triste que Estou Pensando em Acabar com Tudo (I’m Thinking of Ending Things, 2020) tenha despertado um interesse morno da crítica. Pois o filme vai passar despercebido pelo público, disso ninguém duvida. Nem poderia ser diferente, frente às suas dificuldades e à coerência de Kaufman em não ceder em sua visão.

Houve uma tentativa de ganhar tempo com Anomalisa (2015). Mas, agora, Kaufman retorna a seu projeto de um cinema absurdo. Pois parece oco o trabalho de buscar qualquer interpretação que substitua a experiência do filme. Isso não é novidade, mas essa obra lida com tal traço à lá Ionesco com uma contribuição especial. Estou pensando consiste num agregado de temas disperso em várias direções e em constante movimento.

Citações infinitas

Não é necessário tomar muito tempo com o enredo nem flertar com as referências do filme. O texto de Eric Kohn na IndieWire fez isso bem, e a crítica de Richard Brody na New Yorker, num trabalho digno de sua sofisticação, indicou outras referências – além de oferecer uma perspectiva tão brilhante quanto particular. Logo, por onde começar? Talvez o mais importante seja a distância do livro de Iain Reid, e a pretensão clara do diretor em deixá-lo de lado.

O filme se transformaria em algo bem diferente se, como o livro, contasse-nos sobre a projeção da mente do faxineiro, fantasiando sobre a moça que não conheceu. Não é casual que Kaufman ignore a explicação fácil. Aqui, Jake (Jesse Plemons), a jovem de tantos nomes (Jessie Buckley) e a viagem à casa dos pais do rapaz permanecem num território cinza de indefinições. Não existe certeza sobre a identidade dos personagens nem uma fronteira clara entre realidade e imaginação.

Ainda bem. Vê-se inconsistências fantasiosas, como o pai (David Thewlis) e a mãe (Toni Collette) velhos e novos; as fotos na parede, que são tanto de Jake quanto da moça; a máquina de lavar repleta do mesmo uniforme de faxineiro usado pelo personagem (Guy Boyd) na escola. E, principalmente, as citações intermináveis. Nenhuma delas é muito complexa, e para todas há pistas ao logo do caminho.

Muitos modernismos

A aposta de Kaufman em sua versão da modernização cinematográfica passa pela vertigem do deslocamento. É uma visão particular, de fato. Certo modernismo buscou explorar a forma no lugar do conteúdo da narrativa. De súbito, o enredo se descobria o oposto do que dele se esperava. Soterrava-se seu desenvolvimento sobre uma camada tão densa a ponto de tornar equívoco o que se via, retirando a atenção sobre aquilo que era contado.

Tal conteúdo não se mostrava assim tão difícil de discernir – desde que observado num microscópio. Diretores como Resnais fizeram isso bastante bem. A filmes “difíceis” como Muriel (Muriel ou le temps d’un retour, 1963) e Je t’aime, je t’aime (1968) se contrapunham roteiros com relatórios detalhados sobre todos os fatos omitidos ou apresentados numa sequência cronológica fragmentada.

O público parecia obrigado aos textos de Jean Cayrol e de Jacques Sternberg. Lê-los conferia a certeza de que, no caso do primeiro, havia um ar de soup-opera; no segundo, uma ficção científica bastante nítida. No romance, algo parecido acontece a partir de Faulkner, quando, por exemplo, em O Som e a Fúria, o gótico americano ressurgia na forma de Ulisses, e uma narrativa familiar se fragmentava nas perspectivas de diversos personagens.

Mas esse consiste apenas num meio de ser moderno. Outra direção reside em romper com qualquer expectativa em relação à palavra. Certa vanguarda deixou de lado a certeza de que algum significado talvez viesse, de fora, agregar a obra. Em contraponto, as histórias se baseavam somente na descrição minuciosa de fatos, como se eles pudessem tão somente ser empilhados em sequência.

O exemplo mais claro dessa literatura é, certamente, Beckett. Mas existiu também todo um cinema que se debruçou sobre o que ocorre com a linguagem que adquire esse caráter imanente. A partir de então, ela se torna alguma coisa que é. Sua existência se contrapõe a qualquer unidade que tente representá-la. Os gestos se desdobram sem finalidade transcendente, sem um substituto para a palavra, revelando o que se presenciou.

Como consequência, a própria linguagem abandona a pretensão objetiva sobre o que é dito. Ao contrário, ela passa a tratar sobre um fluxo que se estende de dentro para fora. As palavras se sucedem porque seu interior não existe. Se o autor soubesse por que os personagens fazem o que fazem, ele nos explicaria. No fim, torna-se impossível trocar a obra por sua descrição, a experiência pelo resumo.

Kaufman e seu cinema

O cinema de Kaufman parece ter a coragem de colocar um ponto adiante na complicada engenharia. Tanto a expectativa do significado transcendente quanto da ordenação do enredo se tornam frágeis. Mas não apenas. Na técnica do diretor, importante é esse desenvolvimento de fatos concretos. Em seus filmes, existe um conjunto muito precisos de eventos. Eles se desdobram com certa lógica, e, por mais estranho que sejam, nunca parecem abstratos.

Em Sinédoque, a preparação da peça de Caden (Philip Seymour Hoffman) realmente leva os 17 anos que os personagens passam num galpão, ensaiando. Divórcios ocorrem com um peso corriqueiro, banal. Mesmo o fantástico tem um tom doméstico. Hazel (Samantha Morton) morre asfixiada, como se poderia esperar de alguém que passou tantos anos vivendo numa casa em chamas. Lógico, não? É quase como se Amédée tivesse sido refilmado.

Filmar o delírio a partir de uma abordagem que não desafia a forma cinematográfica faz Kaufman abandonar o interesse em subverter o meio. Se o cinema está prestes a acabar, sua resposta consiste não em revisitar seus recursos. Aqui, na verdade, essa arte parece menos importante. Seus assuntos apontam para além dela, e a manipulação que concede a seu repertório reside em sua técnica de paródia.

Uma crítica de Pauline Kael se agrega ao roteiro, e Uma Mulher sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974, de John Cassavetes) está no filme. A retomada de Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001, de Ron Howard) encerra a história. O balé na escola reencena Oklahoma!, na dualidade entre as criaturas de Estou Pensando e Laurey, Curly e Jud, invenções de Rodgers and Hammerstein.

A escritura e a vertigem

A narrativa se encontra ali, mas ao avesso. Por um lado, nada impede que se possa entender Estou Pensando como um “filme sobre” casais em crise. A ansiedade e a frustração retornariam num difícil simbolismo. Por outro, a imanência do texto está na insistência de Kaufman de que o expectador aja como ele frente aos romances que adapta: que os compreenda como quiser, que faça com eles o que bem entender.

Mas não é apenas isso. Toda a pretensão de significar se revira nas repetições de outrem. Kaufman parece levar a sério o caráter da linguagem como escritura, a necessidade de perceber o texto apenas como uma manifestação. Todo o filme parece um sistema de deslizes, que se inicia no livro de Reid e se estende para o extenso conjunto de citações. Essas ideias estão, de fato, ali, mas também fora do texto.

No limite, os personagens não podem nem ao menos ser entendidos como parte de um enredo. Como signos, remetem a outras obras. Nessa construção, um produto reelabora outro. Não se trata mais de dizer que uma cena “é como se fosse” algo que se representaria. Ela se torna aquilo mesmo, e só. A peça de Rodgers e Hammerstein se mostra de fato, assim como o texto de Kael, e tudo mais de que se apropria.

Aqui, o ser desse cinema consiste numa técnica não cinematográfica, que se atrela ao desdobramento de signos cujo significado não é apenas inacessível, mas irrelevante. Surge uma imagem, mas, para além dela, algo se desdobra. Nesse jogo infinito, Kaufman está lá apenas para descobrirmos outro em outro lugar. Seu cinema se esgueira, sendo quem é, e, ao mesmo tempo, alguém mais.

Título: Estou Pensando em Acabar com Tudo (I’m Thinking of Ending Things)
Lançamento (Brasil): 4 de setembro de 2020
Direção: Charlie Kaufman
Distribuição: Netflix (https://www.netflix.com/title/80211559)

Posted in: Arte & Estética