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Arte & Estética

Os Equívocos de O Culpado

O Culpado se revela uma mescla confusa de problemas, ensaiando reflexões que se encerram antes mesmo de levar onde quer que seja.

A capacidade de revisão consiste na principal força do cânone. Nisso, o cinema revelou oportunidades notáveis para visitar muitas vezes um conjunto restrito de ideias, rejuvenescendo-as. Essa reflexão se revela aquilo que O Culpado (The Guilty, 2021, de Antoine Fuqua) não consegue fazer. E se o filme se debruça sobre os termos do cinema policial, isso ocorre quase que por acaso.

Fuqua já deu provas de que conhece bem o gênero, tanto em Dia de Treinamento (Training Day, 2001) quanto no mais bem-acabado Atraídos pelo Crime (Brooklyn’s Finest, 2010). A corrupção parece ter sido seu principal interesse; mas, agora, tal tema esconde mais do que revela. O Culpado se debruça sobre a consciência de Joe Baylor (Jake Gyllenhaal), que tenta remediar o presente motivado por erros do passado.

Contudo, pouco importa que Baylor tenha cometido um crime, assassinando um garoto por razões que nem ele consegue explicar: talvez num exercício de vontade soberana. Relevante vai ser que esse erro o motive a não medir forças para salvar Emily Lighton (Riley Keough), despertando a dúvida se, em sua outra encarnação, ele se esforçaria tanto sobre o caso. Contudo, Baylor está errado, e Emily, ao invés de inocente, é culpada.

Esse erro consiste no ponto mais importante do filme. O engano mostra que o principal suspeito, Henry Fisher (Peter Sarsgaard) consiste no oposto do que parece ser. O equívoco leva o trabalho de Fuqua a uma tentativa frustrada de comentário e reflexão. Detetives dificilmente se enganam, e, se isso ocorre em O Culpado, parece importante compreender até onde esse lapso pode nos levar.

Infelizmente, não se vai muito longe. Pois a perspicácia tardia de Baylor oferece à narrativa a solução reconfortante, evitando que o engano o leve a um ponto de não retorno. Por inteligência, mas também por sorte, o policial enxerga seu equívoco a tempo, provando que sua inteligência não lhe falhou totalmente. Mesmo quando erra, esse tipo de herói consegue ainda se revelar infalível.

‘Esqueça, Jake. É Chinatown’

O documentário policial enxerga sempre o crime de fora, ou seja, da perspectiva de quem o investiga, e não de quem o executa. Nisso, distingue-se de certo tipo de romance noir, como Indenização em Dobro ou O Destino Bate à Sua Porta. Tais filmes guardam também semelhanças com a trama do detetive particular hard boiled; que, nesse caso, são mais importantes que as diferenças. Elas revelam o cerne de O Culpado.

Seu centro está na presciência infalível do investigador. Pois o detetive enxerga tudo enquanto todos os demais permanecem cegos. Essa visão lhe ocorre sempre que necessário. Um dos poucos casos em que erra talvez seja Chinatown (1974, de Roman Polanski). Em contraponto do filme de Fuqua, esse engano é destruidor tanto em termos do que ocorre na tela quanto para o que se dá fora dela.

Polanski teve a capacidade de virar o gênero do avesso com os equívocos de Jake Gittes (Jack Nicholson). Pensado inicialmente como uma homenagem de Robert Towne ao cinema clássico, temperado aqui e ali com alusões à corrupção do Watergate, Chinatown contava com um happy ending – Evelyn Mulwray (Faye Dunaway) se libertava do terrível Noah Cross (John Huston), matando-o – riscado do roteiro pelo diretor.

Ao invés de eliminar Cross e fugir com a filha, ocorre exatamente o oposto, e o patriarca incestuoso obtém mais uma vítima para perpetuar sua linhagem. No final, a luxúria se atrela à acumulação que evita a dispersão da riqueza. A destruição da moça e os enganos do detetive estilhaçam o gênero. Mas o que se dá com Evelyn na tela tem menos impacto do que se passa com o personagem do detetive fora dela.

Os erros e a morte expandem o tema mais assustador de Chinatown, na releitura de Édipo que associa o poder político ao incesto. Nisso, Noah se revela o vilão supremo, para quem não existem limites, nem mesmo o tabu primordial que institui a sociedade. Todavia, ao contrário de Sófocles, Polanski/Towne tiveram a percepção de dissociar seu Édipo em dois.

Para isso, criaram a figura do detetive, que na tragédia grega se mescla com o rei, investigando seu próprio crime. Era um movimento perigoso. Se o herói levasse seu oponente à lei, a tragédia se veria destruída por uma conclusão reconfortante. Mas Polanski evita isso, e, ao mesmo tempo, destrói outro mito, esse muito americano, da potência da justiça exercida pelo indivíduo.

Gittes consegue errar em todas as oportunidades. Engana-se com a impostora que se faz passar pela Sra. Mulwray. Falha ao entender que Katherine (Belinda Palmer) é filha e irmã de Evelyn. Decerto, o detetive é cheio de recursos – todos esses personagens são. Mas essa habilidade nunca o leva até onde parece ser preciso chegar. Como Noah afirma, Gittes pensa que entende o que o cerca, mas se engana.

‘Não vou bancar o bobo por você’

Nenhum instante deixa isso tão claro quanto a cena que Gittes esbofeteia Evelyn. A cena cita quase literalmente um momento de Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941), que, num toque de mestre de Polanski, foi dirigido exatamente por Huston. Spade, na pele de Bogart, agride Brigid (Mary Astor) do mesmo jeito que seu sucessor fará anos depois.

A cena é profundamente misógina, como usualmente o cinema noir tende a ser. Nele, não é estranho que a agressividade se dirija contra mulheres ou contra todos os que não são homens e brancos norte-americanos. Nisso, latinos, negros, orientais e europeus consistem nos principais alvos. Contudo, Spade conseguia se desvencilhar disso devido à sua capacidade de encontrar o criminoso.

Miraculosamente, tudo se resolve quando se chega à conclusão, que coloca o expectador na posição contraditória de tolerar eventuais excessos em troca de um resultado eficaz. Que a simpatia do público por esse personagem o torne cúmplice desse desfecho depende de uma delicada equação entre fins e meios. O efeito de identificação, afinal, vai muito longe.

O Culpado se utiliza de todos esses traços, sem nenhuma de suas ironias. Como se nem um dia tivesse se passado desde 1941, nos atrelamos a Baylor graças à conclusão da trama. Sua confissão não nos leva a crer que passe a reconhecer regras que, como vimos, foram ignoradas para se solucionar o caso à sua maneira. Tal qual Spade e Gittes antes dele, o policial continuaria a distribuir sopapos por aí sem qualquer pudor.

Baylor continua a fazer o que quer do modo como acha correto. Sugere que outros arrombem portas; ultrapassa os limites com seus colegas; ignora outras responsabilidades ao longo do caminho. Mas as portas escondiam a verdade; os colegas se revelam burocratas parvos; todos os chamados ao 911 são apenas trivialidades. Uma curiosa sequência de eventos salva o personagem.

‘E a verdade vos libertará’

E, obviamente, o final o redime num nível ainda mais intenso. Pois há a confissão, e com ela, o álibi de João 8:32. O filme noir sempre teve dificuldade em se mesclar completamente à dimensão do mito que pareceu tão mais simples para outros gêneros, como o faroeste. Havia algo que remetia à descoberta do inconsciente e da exploração da violência que impedia essa conexão, tão simples em outros casos.

Isso fez com que alguns gêneros – e o noir se destaca – guardassem sempre um “comentário” sobre o tempo em que se localizavam. A psicologia ou a política se associavam ao faroeste somente com esforço. Matar ou Morrer (High Noon, 1952, de Fred Zinnemann) versava sobre o macarthismo de uma forma que Ford nunca se interessou em fazer. Mas e O Culpado, faz o quê?

Consiste numa reflexão sobre a masculinidade fragilizada de Baylor? Parede difícil, frente à conclusão. Pensa sobre a política dos poderosos que escondem sua autoridade na lei? Associar o filme de Fuqua a Trump demanda um malabarismo. No fim, o trabalho se revela uma confusão de problemas, todos apresentados sem qualquer pretensão de que venham a encontrar qualquer solução.

Título: O Culpado (The Guilty)
Lançamento (Brasil): 24 de setembro de 2021
Direção: Antoine Fuqua
Distribuição: Netflix (https://www.netflix.com/title/81345983)

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