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Arte & Estética

A Filha Perdida e os equívocos do realismo

Gyllenhaal espera relatar dilemas do presente. Para isso, nega-se a considerar uma alternativa para o legado do melodrama que finge abandonar.

A Filha Perdida (The Lost Daughter, 2021, de Maggie Gyllenhaal) se revela como um filme pretensamente carente de qualquer estilização. Tudo nele sugere o realismo. Isso está no figurino e no cenário, como era de se esperar. Mas, principalmente, estende-se à encenação e ao modo como fotografa os personagens.

Isso deveria se mostrar impossível. Afinal, o peso do gênero precisaria cobrar seu preço. Pois A Filha Perdida é um melodrama bastante preciso. Ou, melhor dizendo, consiste na tentativa de revisitar esse gênero segundo as exigências do século XXI. Afinal, lá se vão de 70 a 80 anos separando-nos das obras de Sirk e Minnelli.

Se a repetição soaria risível, qual o espetáculo oferecido por A Filha Perdida? Responder à pergunta conduz a outra. Afinal, o que era o melodrama das décadas de 1940 e 1950, em trabalhos como A Herança da Carne (Home from the Hill, 1960, de Vincente Minnelli) e Palavras ao Vento (Written on the Wind, 1956, de Douglas Sirk)?

A resposta, dada por Thomas Elsaesser em “Tales of Sound and Fury“, define-o como uma forma apta a tratar de conflitos com proporções cósmicas, versando, todavia, sobre assuntos do tamanho da cabeça de um alfinete. São dramas trágicos encenados como óperas, mas lidando com os temas da vida provinciana norte-americana.

Seus personagens se reviram em torno de grandes pequenos problemas. Em um, vê-se um alcóolatra impotente, preso ao pai e incapaz de se afirmar frente à esposa, o amigo e a irmã. Em outro, tem-se um filho fraco que se revela forte diante de um pai adúltero que seduz a mulher com quem ele pretendia casar.

Em meio a esse arrazoado trivialmente terrível, tais filmes se desdobram como o mais bem-acabado exercício de simbolização que o cinema conseguiu produzir. Afinal, os diretores envolvidos com o melodrama eram grandes estilistas. E, nesses espetáculos em que nada escapa ao olho atento desses autores, tudo pretende conter sentido.

Em Palavras, quando Kyle (Robert Stack) sorve o álcool, o faz de uma maneira que permite ao expectador identificar naquilo que engole todas as suas frustrações. Há muitas maneiras pelas quais o cinema mostra alguém em meio a um trago. Mas, aqui, o sentido é sempre o de dor, adquirindo significado nos gestos e no cenário.

No instante em que o Sr. Hadley (Robert Keith) morre, a montagem com a dança frenética de Marylee (Dorothy Malone) no andar de cima sugere a conexão possível no interior de um pesadelo, estabelecendo um elo mágico entre a energia liberada pela moça e o destino do pai. Em tais filmes, tudo quer nos dizer algo.

Porém, a despeito de suas conexões com o gênero, A Filha Perdida guarda a pretensão de ser constrangedoramente transparente. Pois, nele, estão presentes as mesmas exigências por significado. Há as mães, filhas, casas, maridos, e, mais importante, os objetos que manuseiam como se expressassem suas relações.

Certamente, o item mais importante é a boneca de Elena, que Leda (Olivia Colman) rouba. As razões consistem no cerne do filme, em um convite para interpretá-las. Tal objetivo nunca é explicado, indefinição sugerida pela melhor frase do livro de Ferrante, cortada no roteiro. Tanto melhor: busca-se o que nunca se alcança.

“Você lê e escreve o dia inteiro e não sabe?”, Nina retruca para Leda após o “eu não sei”, réplica à indagação óbvia sobre as razões do sequestro. Mas a resposta é uma demanda mais ampla do filme. Há a boneca que Leda possuía quando criança, que ela dá para uma das filhas somente para, por acidente, destruí-la.

Há também as filhas em si, que ela abandona do mesmo modo que abandona a boneca, mas reencontra após voltar para casa depois dos três anos que passa fora. E, é claro, há a filha que Leda (Jessie Buckley) perde na praia, do mesmo modo que Nina, para reencontrá-la através de uma estranha.

Deixemos de lado essas questões – e também a piscadela nessa cena da praia para Imitação da Vida (Imitation of Life, 1959, de Douglas Sirk). Pouco importa o que tudo isso “quer dizer”. Relevante vai ser a demanda pela super-significação, como se todos esses atos contivessem algum motivo.

E, mais importante, que tudo ocorra através desse deslocamento mãe-filha-boneca. Esse objeto condensa toda a pretensão dramática do filme: é tal brinquedo que Elena “engravida” com a minhoca para tornar parecida com a tia Callie (Dagmara Domińczyk); é para ele que Leda compra roupas na lojinha da praia etc.

Os gêneros baseados na ação podiam encenar os dramas internos dos personagens contra um meio-ambiente monumental. O faroeste fazia isso com a paisagem; o filme de gângster, com o ambiente relativo ao crime. Mas o melodrama se vê confinado no universo da casa e da família. Logo, resta a ele a simbologia com tais objetos.

Nos exemplares clássicos do gênero, objetos, roupas, cores, formas, tudo convidava à intepretação. Mas o figurino e o cenário de A Filha Perdida possui a estranha pretensão de ser absolutamente funcional.A praia mostra o que está lá. A casa que Leda aluga consiste apenas em um teto. O broche de Nina é só um adereço.

Isso se revela ainda mais delicado devido às decisões de encenação e enquadramento do filme. Concentrado – talvez excessivamente – em planos fechados, não deixa sequer espaço para qualquer possibilidade de estilização. Vemos apenas os rostos sempre enquadrados e quase nunca enxergamos nada ao redor.

O mercado no qual as personagens se encontram nem precisaria se localizar em qualquer praia. O mar aparece apenas o suficiente para vermos a lancha chegando ou a família aglomerada nas cadeiras. Os quadros da interação entre Elena e Nina tem o tamanho exato para nos mostrar ambas em ação.

Há um álibi em todas essas ações. A Filha Perdida pretende ser um filme sobre o tempo em que vivemos, um retrato sobre temas femininos, na expectativa de se relevar como um documentário que nenhum documentário poderia ser. Pretensamente objetivo, seria um filme viável só depois do cinema ter acabado.

Tomara que filmes com tal expectativa nunca se revelem possíveis. Seria frustrante que isso ocorresse, pois nada existe sem o peso do gênero. Ao fim, A Filha Perdida parece apresentar dificuldades em expor alguma forma. E, em resposta a isso, adota a saída mais fácil: nos convida a acreditar que não precisaria de nenhuma.

Título: A Filha Perdida
Lançamento (Brasil): 31 de dezembro de 2021
Direção: Maggie Gyllenhaal
Distribuição: Netflix

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