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Arte & Estética

Um bom disfarce

Arremessando Alto, mais um na longa lista de filmes sobre mestres e aprendizes, guarda, como significado, o confortável fascínio de alguém consigo mesmo.

Apenas na aparência Arremessando Alto (Hustle, 2022, de Jeremiah Zagar) pode ser considerado um “filme de esportes”. Decerto, há as partidas e o interminável desfile de atletas encenando a si próprios. Mas sua questão consiste menos no basquete, e mais na relação de mestre e discípulo entre o atleta e seu treinador.

Nada mais banal que compreender tal vínculo como uma encenação de Édipo. O próprio filme convida a isso, na tatuagem de Bo (Juancho Hernangomez), ocupando o braço que, até então, ele mantinha vazio, expressando a ausência de vínculo entre o jogador e seu pai biológico.

Como se não bastasse, há também o jantar em que Stanley (Adam Sandler) e Teresa (Queen Latifah) falam sobre sua expectativa por filhos atléticos: papel que, ambos reconhecem, Alex (Jordan Hull) não cumpre, com seu interesse por câmeras, escolas de cinema e mídias sociais.

Mas o próprio filme não deve servir de guia para compreendê-lo. Decerto, existe, nesse gênero, uma alusão recorrente ao romance familiar. Mas essa encenação disfarça outro significado. Histórias de treinadores e aprendizes remetem ao tema egocêntrico da expansão, sentido bem mais delicado. 

Parte dessas histórias versa sobre professores e estudantes em sentido literal. Nelas, a escola se revela um cenário sempre importante. Grande parte dessas obras se passa em tal local de formação, com discretas incursões na vida pessoal dos mestres ou sutis insinuações de uma rotina para além do colégio.  

Por isso, em Ao Mestre, com Carinho (To Sir, with Love, 1967, de James Clavell), os alunos descartam a ideia de entregar o presente de Thackeray (Sidney Poitier) em sua casa. Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989, de Peter Weir), deixa claro que Keating (Robin Williams) abdica de sua noiva pela escola.

Passagens entre o colégio e a residência dos professores soam sempre tão intermitentes quanto secundárias. Se a escola consiste em um espaço ideal para esses filmes, isso se disfarça, em parte, na justificativa de que, afinal, esse é o espaço onde transcorre a vida profissional dos personagens-chave.

Mas a escola surge como o ponto intermediário entre uma esfera doméstica e um ambiente abertamente voltado ao trabalho, como o escritório ou a fábrica. Suficientemente protegido do mundo externo, o colégio serve para se encenar o tema essencial desse tipo de filme.

Pois, aqui, está em jogo uma imagem de formação. O objetivo essencial desse drama consiste em expressar um significado que se pode traduzir como “crescer”. Condensada na casa e na representação literal do pai, essas histórias adquiririam uma dimensão distinta, decididamente melodramática.

O contraponto à proteção do mestre reside em outro tipo de narrativa de formação. Refere-se aos senhores malignos e ao molde cruel em que inserem seus discípulos. Uma sutil inversão faz com que se chegue a um resultado distinto, como uma modulação do caso principal.

Não existe exposição mais clara dessa variação que o vínculo do Sargento Hartman (R. Lee Ermey), de Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987, de Stanley Kubrick) com seu pelotão. Se a ilha Parris define uma escola de outro tipo, isso se deve ao tipo de destruição com que ali se depara.

Desde Nada de Novo no Front (All Quiet on the Western Front, 1930, de Lewis Milestone), o cinema já viu muitas academias de formação, usualmente com personagens cruéis. Em cada uma delas, está em jogo o outro extremo do aprendizado, que, todavia, existe apenas como contraponto a uma mesma ideia.  

O correlato de “crescer” está em “extinguir-se”, eliminando algo e definindo sua ausência de futuro. Essa seria a tortura no filme de prisão, que o estilo aqui em pauta jamais toca. O brilho de Kubrick está em realizar o tópico que, em outros exemplos, permanece latente, levando uma ideia às últimas consequências.

O ofício de Hartman reside em transmutar Pyle (Vincent D’Onofrio) de larva a fuzileiro. É a tarefa também de Foley (Louis Gossett Jr.) sobre Mayo (Richard Gere) em A Força do Destino (An Officer and a Gentleman, 1982, de Taylor Hackford). Mas, no primeiro, a epifania do segundo final é reencenada como homicídio.

Mas, a despeito desse caso radical, a dureza de qualquer treinamento nunca chega ao limite da aniquilação. Importa a divisão: em um caso, o mestre destrói para criar; no outro, surge como uma potência protetora. Em ambos, cada ato possui sempre um objetivo que coloca o discípulo no centro da narrativa.

Arremessando Alto se atrela ao tema do crescimento, o que realiza razoavelmente bem. Faz isso adicionando o esporte à trama. Esporadicamente, surgem filmes que se apropriam desse tema que nunca encontrou, no cinema ou na arte em geral, a importância que possui para a vida em sociedade.

Aqui, o jogo funciona como um veículo eficaz para essa história de expansão. Afinal, o esporte implica uma barreira que se precisa ultrapassar de alguma forma. Que o cinema tenha dificuldade em explorar sentimentos como vaidade e egocentrismo torna esse assunto ainda mais útil.

Tratado como um problema de formação, encena-se essa história sem a obrigação de lidar com o cinismo implícito no ato de vencer. A ambição se esconde sob do tema da superação de barreiras, sem que se tenha de encenar todas as suas contradições.

Na aparência, nada importa a não ser o confronto consigo mesmo. Enquanto isso, a mão do outro conduz alguém que vê sua imagem no espelho sem se questionar sobre o narcisismo inerente ao gesto. O disfarce está na partida confortável que termina com um homem apaixonado por si mesmo.

Título: Arremessando Alto
Lançamento (Brasil): 3 de junho de 2022
Direção: Jeremiah Zagar
Distribuição: Netflix

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