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Arte & Estética

O prestidigitador alado: Top Gun e seus truques

Top Gun: Maverick se esquiva todo o tempo, disfarçando-se, distraindo o público enquanto o golpe acontece.

Decerto, Top Gun: Maverick (2022, de Joseph Kosinski) se destaca entre os filmes idiotas com a pretensão de ser inteligentes. Contudo, suas contradições convivem com platitudes que não são uma exclusividade do filme. Pois há um contraponto igualmente constrangedor na crítica sobre ele.

Em 1986 ou em 2022, não adianta acusá-lo de um espetáculo técnico vazio, versando sobre a potência dos jatos supersônicos como reflexo da debacle contracultural diante do reaganismo. Com essa estética que mescla “Guerra nas Estrelas, MTV e Calvin Klein”, o filme consiste exatamente naquilo que pretende ser.

Enquanto a produção concilia o inconciliável, a crítica peca por enxergar pela metade. Nisso, nada de novo. Comentários desse tipo já estavam sobre a mesa desde o filme original. Essa miopia facilita o trabalho do novo produto em responder ao que se disse sobre a película anterior com outras contradições.

Pois o roteiro foi escrito com tudo que se escreveu sobre o trabalho de Tony Scott ao lado do teclado. E, como resposta, Top Gun: Maverick opta por jamais esconder nada. Não há qualquer tentativa em camuflar o fascínio com a guerra, a velocidade, a virilidade, a beleza, o culto da personalidade.

Nisso reside sua força. Pois cada uma dessas celebrações vem sempre acompanhada de uma adversativa. Sim, os F-18 são fascinantes. Contudo, o filme nunca ignora o drama pessoal. Sem camisa, Cruise joga football com seus pilotos. Mas o filme não se esquiva em nos lembrar do tempo inexorável que passa.

As time goes by

Afinal, a despeito da máscara da eterna juventude, no Top Gun de 2022, Cruise está com os dias contados. “O fim é inevitável, Maverick. Seu tipo está fadado à extinção”, diz o almirante Cain (Ed Harris). “Talvez sim, senhor. Mas não hoje”. Seus personagens já foram ameaçados várias vezes, mas nunca dessa forma.

Alguém poderia argumentar: mas o comandante fala sobre o futuro dos drones e sobre o programa Darkstar, não é verdade? Seria essa, de fato, uma ameaça ao próprio Maverick? Ou se trata apenas da oportunidade para o piloto replicar sobre a importância do “homem na caixa”, aquele que comanda a máquina?

Afinal, a Marinha, agora, precisa de tipos como Mitchell mais do que nunca. Seria estúpido negar que os Estados Unidos perderam o controle bélico do planeta. E tal esperteza demanda verdadeiros americanos, frente à proliferação de burocratas de letargia em massa como o almirante Simpson (Jon Hamm).

Decerto, não há quem ao longo do filme decrete em definitivo a aposentaria compulsória de Maverick. Mas existe uma confusão no enredo, e nisso reside sua primeira e maior sagacidade. Afinal, uma silhueta sugere uma forma graças exatamente à sua escassa definição.

Nunca os filmes de Cruise ofereceram com tal transparência a certeza de que o tempo passa para seu personagem. A despeito de todos os anos de serviço de Ethan Hunt, os filmes de Missão Impossível jamais mencionaram a longevidade desse herói. Cruise já encenou muitas fragilidades, com exceção dessa.

Tal perspicácia não surgiu ontem. Esse ator já se esquivou da perfeição física com o coronel cego e maneta de Operação Valquíria (Valkyrie, 2008, de Bryan Singer). Já encenou o alcoolismo e a decadência moral em O Último Samurai (The Last Samurai, 2003, de Edward Zwick).

Em sua carreira, inverteu o próprio Top Gun ao se aproximar da contracultura em Nascido em 4 de Julho (Born on the Fourth of July, 1989, de Oliver Stone). Para cada barman com um sorriso sedutor existiu sempre um álibi, contrapondo, às críticas, a evidência da “dedicação”, “versatilidade” e “ousadia” desse ator.

Contudo, a velhice permaneceu como o oponente mais terrível para tal persona. E, agora, a narrativa voluntariamente se revira sobre o fato do homem que deveria ser almirante ocupar ainda o posto de capitão. Essa condição do presente enuncia que o tempo já se foi de modo a nunca mais voltar. 

Em outro contexto, tudo isso soaria irrelevante. Seria apenas a evidência sobre a importância do lobo solitário dotado do vitalismo de quem não pensa, apenas age. Novamente, Cruise estaria no papel do renegado que encena há 15 anos. Mas, aqui, o efeito é bem diferente da única muda de roupa de Jack Reacher.

Agora, a morte anda por perto. A evidência da finitude reside no desfecho de Iceman (Val Kilmer). Decerto, a doença de um é a prova, para outro, de que qualquer mal passa bem distante de si. Porém, que o primeiro desapareça enquanto o segundo permanece vivo afirma a finitude como um eco da conversa com Cain.

Em 2022, encena-se o tempo como o perseguidor próximo à sua presa, sem ainda a ter alcançado. O quadro, estático, ilustra a ação antes de se alcançar qualquer desfecho. Contudo, esse fato inexorável está ali, especialmente dramático frente ao inimigo que ninguém derrota.

Como se isso não bastasse, sugere-se – sem nunca se confirmar – que a missão contra a base nuclear jamais identificada pode ser, com razoável certeza, a última de Maverick. Afinal, soa um tanto óbvio que apenas a amizade do almirante Kazansky – que, afinal, se foi – o salvava de sua insubordinação crônica.

Claro, existem as exigências financeiras que talvez tornem praticamente impossível se esquivar de um Top Gun 3. Caso isso ocorra, uma narrativa qualquer justificará torpemente novos aviões no céu. Mas isso ainda não aconteceu, e, por enquanto, nada parece eliminar a sensação de um finale.

Em 2022, Top Gun: Maverick consiste em um comentário inteligente em relação à idade do próprio Cruise, que completa 60 anos. Mission: Impossible – Dead Reckoning já está pronto enquanto se filma sua segunda parte. E, obviamente, parece difícil que o ator siga impunemente quebrando ossos pelos próximos anos.

Mais impressionante, que a cortina vá se fechar é uma sensação que o filme sugere, e nunca afirma. As consequências da morte ou o desfecho da carreira do capitão Mitchell são temas menores na narrativa, e só se percebe o efeito de seriedade que se luta para oferecer durante a experiência com o filme em si.

Espectros de heróis…

Em um ilusionismo preciso, tal resultado envolve a sensação de que toda a história ocorre um tanto fora da realidade. Claro, há a insinuação sobre o Irã como o inimigo da vez, além de um ou dois outros detalhes objetivos. Mas, colocando-os entre parênteses, a trama poderia ocorrer em qualquer momento.

Como uma fábula, o filme usa o realismo – aquele no qual se envelhece e morre –como o parapeito do qual se observa o mundo lá fora. Todavia, ele não nutre qualquer compromisso com essa realidade. Quanto mais a ambientação nos oferece a sensação de concretude, mais fantástica se revela.

Como se obtêm esse efeito? Novamente, manipulando o tempo. Parece que nada ocorreu na vida de Maverick durante as décadas entre ambas as histórias. O romance com Penny (Jennifer Connelly), relíquia já citada no primeiro filme, sugere a ausência de qualquer outro envolvimento digno de nota.

Entre tantas fotos possíveis de missões que o piloto certamente cumpriu, apenas as imagens de Goose (Anthony Edwards) e Iceman tiradas no porta-aviões estacionado no Oceano Índico merecem espaço no armário do personagem. Alguém bem poderia supor que os outros navegadores da Marinha foram todos uns inúteis.

Na verdade, tudo ocorre como se, desde o final do primeiro filme, Maverick aguardasse no hangar onde – ao que parece – mora, regulando o motor de seu avião particular à espera de um voo digno de seu porte. Mas, como se não bastasse, há um traço ainda mais fantasmagórico nesse enredo.

A isso se associa a miragem que é Rooster (Miles Teller), um espectro do pai, com o mesmo cabelo, o mesmo bigode, a mesma função. Com ele, todo um ciclo se fecha. Se as conversas com os superiores afirmam a inexorabilidade do tempo, esse outro piloto encena o caráter circular que uma ressureição escancara.

A fantasia está completa. Top Gun comporta um instante visível e, ao mesmo tempo, indiscernível. Ele existe dentro do universo que cria para seus personagens, e nada mais. Criticar o filme recorrendo às vicissitudes da realidade vai sempre despertar a resposta guardada em cada uma dessas ilusões.

Para a fábula, que importam as invasões de Reagan ou os drones de Obama? O uso da guerra como cenário consiste na artimanha que permite passar ao largo dela. Pois, de fato, o filme versa sobre uma alegoria de aprendizado e de formação, no mais estranho filme sobre escolas, mestres e discípulos já criado.

… e dramas banais

Maverick é excepcional? Decerto. E qual herói não é? Para a fantasia, nada mais corriqueiro que a exceção. Mas, no cinema americano, esse que se encontra sobre os demais dispõe de um traço bem único. Nunca está sozinho, pois há nele sempre uma fragilidade latente, sanada apenas com o socorro da comunidade.

No filme de 1986, é o apoio de Charlie (Kelly McGillis) e Viper (Tom Skerritt) que permite ao piloto superar a morte de Goose. Em 2022, fica mais claro do que nunca a importância de cada um dos companheiros para o resultado final. E ninguém é mais importante que Rooster, e, através dele, também o navegador morto.

Não há nada de novo nisso. Quando os semideuses se apresentam como humanos, mais distantes dos mortais eles se afirmam. Cada gesto de fraqueza prepara o instante que reitera sua condição sobrenatural. Em 2022, a hesitação depende do drama pessoal que o filme encena com a seriedade que não possui.

Repetiu-se muito que essa sequência era um “bom” filme, melhor que o original. Ele superaria agora fraquezas pregressas. Anteriormente, o roteiro era acusado de pedestre, com piruetas fantásticas no céu mescladas a personagens que, no chão, não sabiam bem o que dizer ou fazer.

O drama familiar, o ressentimento acumulado, a amizade vulnerável, tudo convida ao drama psicológico plausível. Enquanto isso, seus marqueteiros repetem que os jatos são somente o pano de fundo para estima, amor e camaradagem. A narrativa é tola? Decerto. Mas quando isso evitou que se arrancasse lágrimas do público?

A pretensa seriedade que moraliza esses sentimentos se atrela à mescla vigorosa entre a beleza de Cruise e a sensação de que talvez seja hora de contar os dias que lhe restam. Sem confirmar a proximidade do fim, apenas se informa sobre a cronometragem, nessa coleção de truques de prestidigitação.

Como Top Gun: Maverick condensa isso? Há um último artifício que amarra todas essas excentricidades. Seu centro não está na guerra, e sua artimanha consiste em se situar em um local distante dela. Estranhamente, tanto o produto de 1986 quanto o de 2022 se reviram sobre esse tema da escola.

Curioso o quão pouco se explorou o fato do programa em San Diego formar pilotos. Todo o filme revira e, também, esvazia tudo de contraditório e polêmico que poderia existir em películas como Se… (If…., 1968, de Lindsay Anderson) ou Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989, de Peter Weir).

Mestres e discípulos

O que está em jogo nesses filmes, tão próximos e tão distantes de Top Gun? Seria absurdo sugerir que há um John Keating (Robin Williams) em Maverick? Parece inegável: ambos são rebeldes. Mas o professor de Welton guarda algo dócil, em sua incapacidade de vislumbrar as consequências daquilo que desperta.

Quando o potencial da revolta emerge nos jovens dos sonolentos anos 1950, o que ocorre apenas expressa aquilo que o romantismo não pode evitar. Não à toa, Keating tenta tão rapidamente convencer os estudantes para que tudo volte à calmaria. Seguir adiante exporia aquilo com que o filme se nega a lidar.

Que Welton consiste tão somente na extensão da sociedade expressa tudo que Weir busca esconder. Aqueles rapazes de hoje serão os diretores executivos das multinacionais de amanhã, tarefa para a qual a “educação de ponta” precisa deformar suas consciências, preparando-os para seu destino.

Se eles encontram Keating, isso consiste em um acidente não previsto, um acaso que lhes apresenta ao poder da imaginação e ao inconformismo com as convenções. Porém, seguir esse caminho resulta apenas na expulsão de Charlie (Gale Hansen) e o suicídio de Neil (Robert Sean Leonard). Contradições que só os cegos não veem…

Quando o revolucionário indeciso convoca seus alunos à prudência, Keating se encontra a um passo de dar as mãos ao professor Maverick. Pois o comercialismo culinário da calça jeans, do videoclipe e dos combates aéreos ganha espaço quando a inocência desse primeiro mestre cede lugar a algo impossível de competir.

Se Top Gun foi sempre saboroso, as razões vão, de fato, além da ode aos aviões. Depende da rebeldia incapaz de enxergar além do próprio umbigo. O sorriso bonito de Cruise dispensa os versos de Keats ou de Whitman, e está tudo pronto para o embate seguro com os burocratas do alto comando.

Quando Maverick rouba o jato, vem à lembrança a cena de Se… em que Mick (Malcolm McDowell) também se arma. Mas sua luta é contra o sistema educacional público inglês, indício da hipocrisia de uma sociedade que prega a paz de Cristo, mas executa uma violência sádica e cruel.

Contudo, a revolta de Maverick é o fogo amigo de quem se rebela para servir melhor. Em comum com Mick, tem somente o aspecto juvenil. A luta do herói de Top Gun – uma revolta ao avesso, que significa endosso – é menos contra o inimigo atômico do que contra os burocratas sem criatividade, esses falsos americanos.

Desenhos desanimados

Cruise luta arduamente por se transformar na última grande persona em um tempo no qual o cinema se transformou em um gigantesco desenho animado. Top Gun pretende se revelar importante graças a seu uso realista de aviões concretos e de emoções falsas em frente a uma câmera que capta cenas reais.

É como se a acrobacia aérea fosse a evidência da virtuosidade emocional. Os jatos se retorcem com a mesma energia que, no filme, ofereceria ao público a certeza de que se assiste a um drama humano. Decerto, sua aposta nem ao menos disfarça o resgaste do star-system.

Apenas um tempo profundamente reacionário conseguiria compreender essa como uma questão digna de levar a sério. Houve um momento em que se acreditava na importância de destruir a estrutura que Top Gun tenta salvar. Faz sentido nesse universo povoado por imagens sem qualquer imaginação.

Nele, caberá a Cruise se rebelar contra os bits do tédio, a computação gráfica sempre com o mesmo gosto insosso. O idoso jovem, o rebelde patriota, o grande ator de um só personagem quer nos oferecer uma diversão verdadeira quando o entretenimento perdeu o pudor de aborrecer a todos.

Título: Top Gun: Maverick
Lançamento (Brasil): 27 de maio de 2022
Direção: Joseph Kosinski
Distribuição: Paramount

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